Por que temos mania de achar que para que o amor exista ele precisa ser arrebatador? Daquele amor que "sem o qual se quer morrer"? Por que pensamos que um amor só é amor se ficamos sem dormir pensando na pessoa? Se ficamos sem comer até que a pessoa ligue? Por que achamos que o amor só é válido se ouvimos fogos de artifícios quando acontece o beijo? Por que pensamos que com este sentimento apenas fazemos amor e não transamos? Por que o amor não pode ser amor mesmo sendo um pouco capenga às vezes? Por que não pode ser amor mesmo quando às vezes olhamos para a cara da pessoa e pensamos: "ai, eu quero dormir até amanhã"? Por que para provar o amor é preciso estar cego a todos os corpos e rostos bonitos que vemos pelos caminhos?
O amor também fica de saco cheio, amor também quer mandar a pessoa para putaqueopariu de vez em quando. Quem nunca sentiu vontade de sumir e de poder sentir um pouco de saudade? Amor sabe esperar, sabiam? Sabe sim, mesmo parecendo que não. Amor sabe morrer e nascer de novo. Amor de verdade recomeça do nada, recomeça do não. Amor não envolve somente beijos, abraços e noites de sexo alucinante. Amor é aquele que permanece quando a grana falta, quando não se está a fim de fazer caras e bocas somente para agradar. O amor supera a cara feia, o "hoje estou de chico", o “tem pizza de ontem na geladeira”, o "lava que eu enxugo", o "vou jogar futebol com os amigos", o "ser você mesmo", o acordar com a cara amassada - o amor supera.
Amor não acaba por dúvidas bobas, nem pela interferência de uma terceira pessoa – e se acabou é porque pode ter sido qualquer outra coisa, menos amor. Mesmo assim, o amor está sujeito a se confundir no meio do caminho. Quem é que não se confunde nesta vida? O amor às vezes parece não ser o suficiente para continuar, e aí é que ele pode provar que vale a pena, é aí que ele pode tomar embalo e recomeçar de novo - mais forte e maior ainda do que jamais foi.
O amor não é apenas passear ao sol – não. Amar é correr na tempestade, sentir medo e ainda assim querer proteger o outro. Amar é poder ficar em silêncio - o silêncio é a maior das intimidades - o silêncio fala. E o amor entende e ouve o silêncio.
O amor, mesmo não sendo como lemos nas belas poesias de Neruda ou Drummond, ainda pode ser simples e ser puro. Pode ser amigo e pode ser eterno. O amor não precisa ser perfeito, e nem existe o amor perfeito. Já disseram que "amar não é que ter sempre certeza". Verdade: o amor titubeia, sofre, chega quase no fim e revigora.
Mas o amor não deve ser "quase". Não deve quase dar certo, não deve ser lamento. O amor tem que ser recíproco e tem que ser forte para que permaneça sem que na primeira dificuldade se pense que nada mais vale à pena. O amor deve ser pleno, mas uma vez ou outra tem que se permitir estar só, pois tudo o que é demais não faz bem.
O amor deve ser mais do que rimas de frases bonitas, deve deixar à vontade até mesmo para dizer: "hoje estou sem saco pra você" - por que afinal, sabemos que nem isso vai fazer com que ele acabe. O amor deve saber acatar a distância e ser seguro mesmo não estando perto.
Realmente, o amor não é perfeito, não desejemos então um amor que tente sê-lo. Desejemos um amor que não só escute, mas que fale, que não só fale, mas que também pense, que não só diga que ama, mas que prove. Desejemos um amor que, se um dia estiver prestes a acabar, tenha entusiasmo para recomeçar. Desejemos um amor que recomece mesmo quando não acaba - que se renove fazendo com que amanhã seja ainda maior do que foi hoje.
Enfim, que desejemos um amor sem sonhar com o impossível, com o inatingível. Que tenhamos o direito de sentir medo e saibamos reconsiderar quando o amor quiser fugir. Que aprendamos a amar e a conhecer a mesma pessoa quantas vezes forem necessárias para que dure pra sempre - ou para que seja eterno enquanto possível. Que respeitemos um amor que é real e que não tem pretensões de contos de fadas ou filmes hollywoodianos: que tem mau hálito de manhã, dor de cabeça, mau humor, olha a bunda da gostosa ou gostoso de rabo de olho sem que isso signifique desrespeito, tem dúvidas e às vezes acha que não é tanto. Um amor que quer atenção, chora, sofre, faz dramas, tem ciúme. Que o queiramos assim mesmo, aceitando tudo o que ele tem de ruim, contando até dez de vez em quando para não deixar a paciência esvair e sorrindo ao constatar que tudo isso é infinitamente menor do que aquilo que ele possui de bom.