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Agendas, cadernos de perguntas e papéis de cartaSe você é mulher e viveu a infância nos anos 80 e 90 lembra-se perfeitamente de uma mania que assolava 9 entre 10 meninas na época: a mania das agendas.
Nas tais agendas entravam de tudo: embalagens de brinquedos, bilhetinhos, papéis de carta, figurinhas com a cara dos New Kids On The Block e da Barbie. Entravam também as coisas mais absurdas como papéis de bala, chicletes e de chocolates - tudo isso por que a pessoa que havia dado o doce era o menino por quem a garotinha nutria uma paixão platônica. Conheci uma vez uma menina que guardava os guardanapos da coxinha que o menino que ela gostava comia no recreio.
O engraçado é que havia uma certa competição entre as meninas: a melhor agenda era sempre a mais grossa e com conteúdo mais "interessante" (leia-se aqui, mais papéis de doces dados pelos objetos de desejo). As mocinhas que tinham agendinhas escolares eram desprezadas. Afinal, quem disse que agendas existiam para fazer anotações sobre provas e trabalhos?
Na mesma categoria, a escolar, ou quase isso, estavam os cadernos de perguntas. A grande maioria das meninas carregava o seu embaixo do braço. As perguntas eram sempre "clássicas": "Qual é o seu nome completo? O que você quer ser quando crescer? Qual sua cor preferida?". Claro, todo este questionamento tinha o único propósito, o de se fazer fofocas. Meninas colegiais que viveram a infância nos anos 80 gostavam de futrica como em qualquer época. Veja se entende: O caderno tinha umas cem perguntas. Entre as cem sempre existiam as tais perguntas "x" que implicavam em algo a mais. Era algo do gênero: "Tem alguém que você odeie? Diga quem." Claro, quase ninguém respondia. Mas quando respondia, o tal caderninho rolava de mão em mão até chegar ao desafeto. Coisa séria, veja bem - era aí que entrava em cena a famosa frase: "te pego lá fora". E era aquela confusão. Diretoria, suspensão e bilhete para os pais na certa.
Entre uma intriga e outra, uma outra grande função do caderno era desvendar os amores dos estudantes. Aliás, esta era a principal das perguntas: "de quem você gosta?". Os mais corajosos respondiam e corriam o risco de serem achincalhados por todos. Era comum a menina tímida e feiosa sempre ser apaixonada pelo menino mais lindo e popular do colégio - aquele que jogava no time de handebol, por exemplo. Mas havia alguns sortudos que começaram um namorinho bobo (era o máximo permitido na época) e tudo devido a ter respondido ao questionamento do caderno.
Ainda dentro dos muros da escola havia as colecionadoras de papéis de carta. Era uma febre! A meninas tinham pastas e pastas de papéis com desenhos fofinhos e delicados: Hello Kitty, Betty Boop, Turma da Mônica, a interminável coleção da Fofura e por aí ia...
Para ser considerada uma colecionadora com quem realmente valesse a pena trocar de papéis, era preciso ter no mínimo algumas coleções completas e muito bem cuidadas dos papéis mais requisitados. Era uma espécie de ritual muito respeitado por todas as meninas: ninguém queria papel amassado, papéis pequenos valiam menos, coleções de papéis com envelopes valiam muito mais, papéis com envelopes e ainda com mais algum "badulaquezinho" extra, valiam mais ainda. A hora do recreio era o momento em que todas as meninas corriam com quilos de papéis de carta organizados em pastas para trocar com as colegas. Sempre havia a menina que era a mais disputada de todas. Aquela que a mãe comprava "bloquinhos" novos todas as semanas. Todas morriam de inveja dela.
A moda do papel de carta deve ter passado. Pelo menos nunca mais vi nada a respeito. Também nada mais sei sobre as agendas arrebatadas de coisas e dos cadernos de perguntas. Os anos oitenta parecem mesmo terem sido mágicos em vários aspectos. Você também tem saudades?