14 de jan. de 2004
Quem tem medo do "eu te amo?"
Há muitos séculos atrás, quando eu era só uma menininha inocente que ainda nem havia dado seu primeiro beijo (há dez anos), minha maior pretensão era ouvir alguém dizer que me amava. Achava que aquilo seria o maior dos acontecimentos.
O tempo passou, um dia uma pessoa me disse "te amo" e eu travei. Fiquei olhando pra cara do moço sem reação. Ele queria que eu respondesse a frase dele com no mínimo um "eu te amo também". Mas eu fiquei apenas olhando. Dei um sorriso amarelo e perguntei se ele estava a fim de um churro. Ele topou. Deve ter pensado: "Se esta 'coisa' não corresponde ao meu amor que pelo menos me pague um churro, é justo". Paguei dois.
Nos meus tempos de menina ingênua eu achava que era fácil gostar de alguém. O que eu achava difícil era fazer alguém gostar de mim. Achava que se alguém se apaixonasse por mim e que se até mesmo me amasse, seria fácil corresponder. Me enganei.
Tive alguns namorados. O primeiro nunca me disse "te amo", nem tampouco ouviu. Não era amor mesmo. Era algo próximo disso, mas não sei o que faltou para que fosse. O segundo, um dia me olhou com uma cara esquisita e começou a falar de logaritmos (aquela coisa chata em que b é a base do logaritmo, a é o logaritmando e c é o logaritmo) e ficamos os dois divagando sobre o porque desta tralha existir. A conversa estava interessantíssima até que ele me olha e diz "logaritmo não vai servir de nada na minha vida, sabia que te amo?". Eu que achava que o momento da tão esperada frase viria cercada de romantismo e coisinhas fofas, caí do cavalo. Desta vez minha resposta melhorou. Eu sorri e disse: "que fofo! Ama mesmo?". Ele disse de novo, eu falei "também te amo" e ele me ofereceu um churro. O terceiro namorado disse que amava em frente a um cinema decadente no centro de Curitiba. Mas acho que não amava. Neste dia eu pedi para conversar com ele. Queria terminar o namoro e quando ele soube disse que me amava. Eu não disse nada, mas não tive coragem de terminar o namoro. O quarto (calma, a lista não é tão grande assim), terminou com a namorada a quem dizia que amava para ficar comigo porque não agüentava mais estar longe de quem tanto amava também - vai entender. E ele dizia "te amo" a cada segundo. Dizia tanto que parecia algo automático, o que eu nem me dava ao trabalho de responder, apenas olhava e sorria. Com o último namorado fui eu que tomei a iniciativa. Disse que o amava no meio de uma conversa de telefone. Ele ficou mudo do outro lado. Depois de alguns segundos disse que estava com saudades e que queria me ver logo. Eu, decepcionadíssima, pensei: "Será que ao menos ele vai me oferecer um churro?". Nada.
As pessoas têm medo de dizer e de ouvir "te amo" - é responsabilidade pra caramba! Quem sabe todo mundo saiba de cor um trechinho de Antoine Saint Exupéry que fala que a pessoa se torna eternamente responsável por aquilo que cativa. É verdade. Gosto de pensar que todo mundo tem uma espécie de acordo com a outra pessoa. Quando as duas resolvem fazer parte da mesma história, ambas têm direitos e deveres e vão guardar lembranças pra vida inteira. E lembrar coisas tristes não é bom. Esquecer é difícil, machuca, estraçalha corações. Por isso se envolver é tão complicado.
Mas, voltando ao 'eu te amo' não dito do meu último namorado. Ele virou meu marido. Me fez descobrir que amar vai muito além de simplesmente dizer. Ele, que já sabia de toda a responsabilidade omitida em uma frasezinha de nada, faz melhor, me ama além das palavras. O amor é mais do que palavras, dizer nem é tão importante, o melhor é agir.
Postado por Tuka
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