31 de ago. de 2004
Ela foi ao cemitério umas duas vezes na vida. Em uma delas foi ao enterro da tia do namorado de uma amiga. Na outra, queria cortar caminho para chegar mais rápido a uma loja de sapatos que ficava na rua de trás e que iria fechar em poucos minutos.
Nessas duas vezes, prestou atenção nos epitáfios dos túmulos, chegou até a parar diante de alguns: "João da Silva, 1915-1992, bom pai e marido, fez da sua vida o melhor que pode e morreu em paz, deixou saudades e uma história para ser contada e relembrada por seus entes queridos".
Leu e pensou que se morresse agora não teria feito nem o suficiente para escrever em seu túmulo. Poderia ser algo como: "Alice Ferreira, 1974-2004, não casou nem muito menos teve filhos, tradicional: sempre tomava sorvete de chocolate, não arriscou demais, nem na cor de suas roupas, sempre pretas e sem graça, gostou de um moço por anos e nunca teve coragem de se declarar, ia ao cinema ver filmes antigos e estava quase sempre sozinha, dizia que a solidão tocava a alma, gostava de liquidações e morreu atropelada a caminho de uma"
Postado por Tuka
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