O telefone toca. Grita! Quase que chama pelo meu nome. O ignoro, faço cara feia, olho pelo canto do olho para ver se ele desiste. Não quero atendê-lo. Tenho certeza de quem quer que seja do outro lado da linha é qualquer pessoa que não a única que eu gostaria que fosse.
Ponto para o telefone. Corri até ele no último berro que o infame bradava ecoado em minha sala e o atendi. Alô. Não, não tem nenhum Juan aqui. Não, esse telefone é residencial. Já sim, contribuo para três instituições de caridade e não tenho dinheiro para mais uma.
Todas as invenções da humanidade até hoje, pelo menos desde que eu tenha me dado conta, tornam nossas vidas um mar de espera e ansiedade. Antes do celular eu era mais feliz. Agora o maldito fica mudo quando eu quero ouvir a voz de uma pessoa e as mensagens de texto que recebo são de alguma promoção da operadora. Se eu não tivesse e-mail não ficaria em uma expectativa danada por palavras que não chegam nunca. Pelo menos com o correio sempre havia o consolo de que a carta poderia ter sido extraviada.
Só hoje, uns cincos operadores de telemarketing ligaram. Tentei enlouquecidamente que eles entendessem logo nos dois primeiros minutos de conversa de que não precisava de uma assinatura de jornal, que eu não gostaria de fechar mais um pacote da TV a cabo, que eu não quero outro cartão de crédito. Tanta baboseira e eu ainda pulo da cadeira quando o maldito telefone berra de novo. E de novo é qualquer pessoa, menos a única que deveria ser.
Fui tomar banho. Eis o único momento do dia inteiro que não pode ser você caso o telefone toque. Me demoro a ponto de que minhas mãos fiquem murchas, quase sem vida. Da janela do banheiro ouço o vizinho do andar de baixo chorar ouvindo uma música que não consigo distinguir qual seja. Tantos sofrem.
Me perco em pensamentos e o vizinho ainda chora. Me pego pensando sobre o que pode ter lhe acontecido. Se alguém tivesse morrido ele não choraria daquela forma. Aquele choro acusava um outro tipo de perda. Era um pranto de amor. De desamor melhor dizendo - sei bem, já passei por isso. As malditas lágrimas saíam contra a minha vontade, sentia como se uma parede de concreto pesando toneladas estivesse sobre meu peito, tamanho aperto que eu sentia, tamanha era a dor, a angustia, o desespero. Desespero, definitivamente é a palavra que melhor traduz a dor do desamor. Corrói a alma como o ácido à carne. Não cicatriza mais, deixa marcas eternas.
Estou escutando o telefone tocar... Será no vizinho? Não! É na minha sala! É você? Não, deve ser de outro telemarketing. Vou me enxugar com calma, vou esquecer o vizinho e sua tristeza por ora sem antídoto, e desligar o maldito do telefone da tomada.
Tem recado na secretária eletrônica. "Oi, pensei em te ligar o dia todo, mas só agora tive tempo. Uma pena que não estivesse em casa, amanhã tento de novo, beijos".
Murphy, eu odeio você!