
Teve medo de não saber mais se portar sem tê-lo a seu lado. Mas em contrapartida pensou que foram tantas as vezes que recomeçou, que bem ou mal faria isso de novo – e da maneira certa, porque todo fim implicava um recomeço então recomeçaria. Lembrou-se mais uma vez de um filme francês estrelado por Juliette Binoche em que ela dizia: “Cuidado com aqueles que já sofreram porque eles sabem que podem sobreviver apesar de qualquer coisa”. Foram tantos os obstáculos em seu caminho que prometeu a si mesma que da próxima vez não mais sucumbiria, não se entregaria.
E lembrou das manias, dos pequenos detalhes que iam desde o jeito em que ele dormia quando estava exausto, até a forma metódica em que comia: mexendo bem, pegando aos pouquinhos e comendo devagar para apreciar o sabor da comida. Ela chora ao pensar nisso. E nunca pensou que sentiria falta de coisas que nem sabia que prestara atenção no meio de tanta correria dos dias que passavam. Os dias que passavam e levavam com eles a história de duas vidas, seus medos, suas conquistas e cumplicidades – suas vitórias e derrotas superadas, suas tantas coisas que estavam tão repletas deles dois. Só dos dois.
Pensou que em meio de tanta alegria compartilhada, de tanta vida dividida, a tristeza e a mágoa prevaleceram mais do que deveriam e foram várias as vezes. E se perguntou porque as pessoas se punem dessa forma. Pensou em Chico naquela canção que agora insistia em pular em sua memória – há tanto não lembrava dela:
“na fotografia estamos felizes... Meus olhos molhados, insanos, dezembros, mas quando eu me lembro são anos dourados - ainda te quero...”. Olhou mais uma vez para todos os momentos eternizados nos porta-retratos: sorrisos, beijos, abraços, olhares... Onde estavam todos aqueles momentos que ficaram esquecidos em meio a tanto choro e dizeres desnecessários? Sentia falta de quando podiam gritar, brigar e extravasar os demônios e ainda procurarem um pelos pés do outro durante a noite, e se isso acontecesse significava que o perdão vencera mais uma vez. Já naquela noite ela temia que ele permanecesse distante. Mais lágrimas desciam contornando as linhas de seu rosto.
Tinha que aprender a calar, falara demais. Tinha que aprender a chorar para dentro, lágrimas demais afogam o amor. Tinha que aprender a se perdoar, se exigia muito.
Fez as malas, mas no fundo esperava um abraço. Se a abraçasse abraçaria de volta. Olhava as coisas espalhadas a seu redor, mas tudo o que desejava era um pedido de desculpas. Se pedisse desculpas, desculparia. Apesar do silêncio, ainda ouvia palavras ditas com raiva, e tudo o que queria ouvir era para que ficasse - e ela ficaria.
Sentiu-se tão frágil e desprotegida quando uma flor caída no chão em que milhares de pés pisam todo tempo. Sentiu-se como estivesse prestes a ser esmagada e nada pudesse fazer a não ser esperar que o vento mudasse sua direção e a levasse para um lugar seguro. E nem o vento veio a seu favor – ela mesma teria que se proteger nem que para isso precisasse arranjar forças e arrastar-se para longe. Longe do único lugar e da única pessoa no mundo que queria estar perto.
Deitou na cama e pensava sobre o que faria da vida. Sentiu um braço a laçando – abraçou em resposta. Ficou em silêncio e teve certeza de que poderia ouvir o bater de seu coração desesperado dentro de seu peito – parecia que queria falar por ela. Ouviu o pedido de desculpas. Fez o mesmo e desculpou. As palavras raivosas foram aos poucos se dissipando em sua mente, embora ainda a machucassem. “Fica”. E ela ficou.
“Me vejo a teu lado, te amo? Não lembro... Parece dezembro de um ano dourado, parece bolero. Te quero, te quero... Dizer que não quero, teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais...”.