
Todos tem uma opinião formada a respeito de tudo. Você acha que sabe como é a vida da vizinha e a julga por ela chegar em casa cada dia trazida por um carro diferente. Você não a conhece e não sabe que a firma em que trabalha oferece serviço de taxi a paisana (daqueles sem placa vermelha nem nenhuma alusão a palavra "taxi" escrita na lataria) - ela é uma alta secretária executiva e ganha pelo menos dez vezes mais que você.
Você fala mal da sua prima que ficou casada por apenas oito meses. A olha feio nas festas, a chama de galinha, diz que ela não para com homem nenhum. Claro que você não sabe que ela apanhou do marido na segunda semana de casamento e o pegou com outra mulher na própria cama quando voltou mais cedo de uma viagem.
Você julga a filha de sua amiga que engravidou com quinze anos. Esquece que sua filha adolescente também sai à noite, também já teve dezenas de namorados e também está com a menstruação atrasada.
Você se faz de melhor amiga, ganha a confiança de todos, espera até que lhe contem seus segredos. Depois lhes julga e joga o que lhes disseram contra todos - você não vale nada.
Você se acha superior. Você comete tantos erros ou até mais do que todos os que conhece, mas os guarda a sete chaves. Tem medo que as opiniões alheias pairem sobre você exatamente como as suas sobre todos.
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Sabem, eu olho as pessoas na rua. Penso em quão feias ficaram com determinadas roupas. Olho as celulites e comento mentalmente que não apareceriam tanto com outra saia. Acredito que o vizinho gostoso é gay porque um homem daqueles é bom demais pra ser verdade. Falei mal da guria que casou com o professor que já tinha uma esposa quando ela começou a dar em cima dele, a chamei de galinha em companhia do meu amigo Du. Adoro imaginar todas as ex namoradas do meu marido gordas e meus ex com cara de bunda.
Sabem, sou normal. Tenho as maldades de um ser humano qualquer - medíocres que somos todos. Mas não consigo ir além como tantos conseguem e fazer da vida alheia algo indispensável para viver a própria. Pois se a vida já é tão rápida se eu me preocupar apenas com os meus problemas, como será se eu for olhar e julgar todos a meu redor? Já diria o marido: "ema, ema, ema - cada um com 'seus' problema".