
Sabe aquelas dúvidas quase sempre inúteis que todo ser humano carrega? Aquelas com as quais nos questionamos se teríamos sido mais felizes caso as nossas vidas tivessem tomado um outro rumo, se tivéssemos nos casado com aquela grande paixão que hoje em dia nem temos mais notícias? É exatamente sobre isso que fala o filme que assisti ontem. “Antes do Pôr-do-Sol” mostra o reencontro de Jesse e Celine. No filme anterior, “Antes do Amanhecer”, os dois jovens se conhecem em uma viagem de trem e se apaixonam intensamente durante apenas um dia em que estiveram juntos na cidade de Viena.
Como todos os filmes de amor, aquele também fala dos inevitáveis clichês que acercam este sentimento. No entanto, como uma história que pode acontecer com qualquer um, o filme não faz questão de terminar de maneira “viveram felizes para sempre” – não tem um final receitinha pronta em que os mocinhos ficam juntos apesar de qualquer conseqüência. Não. Celine mora na Europa, Jesse mora nos Estados Unidos – existe uma distância tamanha entre eles, mas também existe uma paixão inegável. Então eles se despedem na mesma estação de trem em que tudo começa.
Na hora do adeus eles concordam que os relacionamentos se arruínam pelas pretensões, expectativas ou certezas pré-concebidas que o momento parece decretar ("te amarei pra sempre!"). Ao contrário de telefone ou de endereços, eles apenas trocam a promessa de voltarem naquela estação seis meses depois e, só então, decidir como suas vidas continuarão.

Se “Antes do Amanhecer” tinha suas lentes voltadas para o momento mais intenso e delicioso de um relacionamento, sem cobranças com relação ao futuro, “Antes do Pôr-do-Sol” procura justamente o outro lado. O que perderam os dois jovens quando decidiram não trocarem telefone ou endereço? Eles cumpriram com a promessa de voltarem a se encontrar seis meses depois? Algo tão intenso poderia se acabar com o tempo, tornando-se apenas uma boa lembrança?
Nove anos se passaram desde então. Jesse escreveu um romance sobre a história daquela noite e, na última parada da turnê para divulgá-lo, em Paris, ele reencontra Celine. Agora, ela está morando naquela cidade, ele em Nova York e seu vôo de volta está marcado para aquela noite.
Filme singelo, repleto de belas paisagens e com diálogos que nos faz pensar a respeito de nós mesmos. Saí do cinema comovida com a alegria e calma com que Jesse, sentado no sofá da casa de Celine, a via imitar Nina Simone. Seus olhos a olhavam como se sua vida só tivesse feito sentido se ele tivesse ficado a seu lado desde aquele primeiro encontro, quando se perderam por tanto tempo. “Você vai perder seu avião” – “eu sei”...
Tem um pouquinho de qualquer pessoa nessa história. O modo em que os personagens amadurecem, a maneira como seu modo de encarar o mundo se modifica, os sonhos que ficaram para trás, as amarguras acumuladas pela realidade das coisas...
Me senti tão à vontade com as palavras daqueles dos dois amantes que às vezes me peguei lembrando momentos em que eu também disse as mesmas coisas.
Se você quer ir ao cinema ver a este filme, antes passe na locadora e alugue “Antes do Amanhecer”. Será mais interessante, pois poderá fazer uma ligação entre os personagens, no estilo “antes e depois”. Valerá a pena.