
Vi na televisão dia desses sobre uma exposição que está havendo aqui em São Paulo, em que os artistas retratam através de pinturas a dor física que sentem. São pacientes que estão sendo tratados de diferentes enfermidades, que foram incentivados a dar cara a dor que tanto os agridem. Um deles disse a reportagem: "Olhando pra ela pintada aqui no papel, não me assusto tanto mais, o medo é menor".
Isso me fez pensar a respeito: será que todo o medo e toda dor exposta assustam e machucam menos do que o que fica apenas dentro de nós? Será que aquilo que tentamos com afinco desmistificar e destituir de seu caráter de inatingível, de impronunciável e de inaceitável se transforma em coisas de menor proporção? Não sei ao certo, mas pode ser que a resposta seja sim.
A dor física pode ser descrita. O peito dói, os olhos ardem, as pernas latejam. Vejam Frida Kahlo. Ela não era nada até começar a se auto-retratar na cama, doente. E a dor emocional? Também vira música, livro, poesia, obras completas. O sofrimento inspira, é verdade. Vejam Alanis Morrissete que fez de Jagged Little Pill sua estréia no mundo das grandes cantoras e compositoras. Tudo por causa de um coração partido.
Outro dia eu estava fuçando a maneira que as pessoas chegam até esta casa e me deparei com a seguinte frase procurada pelo google: "ajuda para parar de sofrer por amor, para parar de doer". Fiquei tocada, alguém chegou aqui atrás de ajuda. Se conseguiu é que não sei. O que dizer a esta pessoa então? Seja como Frida, Alanis e os recém artistas daqui de São Paulo? Reverta isso a seu favor? Espere que passa? Vá ao médico?
Não, não posso. Para este tipo de dor não existe nenhum remédio que se compre em farmácia. Não tem nada que possa ser receitado, prescrito. Para este tipo de dor o jeito é mesmo vivenciá-la até que quando menos esperamos, ela já não está mais em nossa companhia. Não estou dizendo que devamos nos afundar na cama e ficar lá até que o fulano ou a fulana voltem, não. Pois isso pode tanto acontecer quanto não acontecer nunca. O melhor é seguir e aos poucor ir exorcizando os males, os fantasmas e deixar que as lembranças se tornarem coisas boas e não martírios do que perdemos, do que passou, do que não temos mais.
A vida é cheia de começos e finais desde que saímos da barriga de nossas mães e sabemos que um dia "ao pó retornaremos". É fato que todo fim implica em um novo começo. Sei também que os momentos de sofrimento parecem que nunca acabam. Mas acabam sim. Como acabou aquele dia feliz, como aquela dor acabou de vez depois daquele tratamento, como acabou o sorvete delicioso, como acabou aquela humilhação terrível no trabalho, como acabou o amor.
Tudo que acaba pode recomeçar de novo se quisermos, de outra forma, num outro lugar, com outra pessoa. Porque não existe adágio mais bonito e mais real do que este: "não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe". Pois se enfim, passarmos nossos dias esperando a eternidade de tudo é como se escolhêssemos viver sedados às expectativas do que nos pode acontecer. E desse jeito nunca estaríamos preparados para aproveitar a simplicidade e beleza de estarmos vivos. De sentir o que a vida nos proporciona de um jeito tão especial e tão singelo, como um dia de sol (ou de chuva), como a companhia dos pais, como estar na hora certa no lugar certo e a vida mudar completamente.