Ontem foi aniversário de minha mãe. Sobre ela, eu teria milhares de coisas a escrever, tantas que sequer caberiam em um livro dos mais recheados. Só que nem eu jamais conseguiria traduzir em palavras o tanto dela que apenas meus pensamentos conseguem compreender.
Minha mãe é única, assim como todas as outras mães. Só ela sabe e também não sabe muitas coisas. Como sabe que é birrenta e teimosa, mas não sabe que tem uma força no olhar que daria medo ao que se considera o mais poderoso dos homens (caso esse homem existisse mesmo).
Minha mãe não sabe cozinhar, mas se esforça. Compra uma comida gostosa e pronta como ninguém! Mas sem querer cometer injustiças aqui: faz pães deliciosos. Ela, nos tempos em que muitas de suas amigas aprendiam a fazer quitutes, pulava da cama de madrugada e seguia seu rumo a pé por quilômetros até chegar ao trabalho. Ela lecionou por trinta anos. Professora de português admirada, temida e alérgica a giz, vê se pode - ironia do destino, como tantas com que ela se deparou durante sua vida.
Dona Sílvia, além de seu próprio nome me deu a paixão pelos livros. Lembro ainda bem claramente do vendedor batia lá em casa todo mês querendo empurrar mais uma daquelas luxuosas e raras coleções completas. Ela comprou várias escondida de meu pai. Machado de Assis? Ta lá. José de Alencar? Também. Jorge Amado? Presente. Até Paulo Coelho está por lá em lugar soberano na modesta estante da sala de minha mãe. O ápice de sua felicidade como professora foi pouco tempo antes de se aposentar. Tornou-se responsável pela biblioteca de uma escola e por lá passava horas recomendando livros aos alunos mais espertos. Eu estudava na mesma escola nessa época e também me lembro de ter sido um dos meus períodos mais felizes. Podia correr pra lá e ficar a seu lado e ler o livro que quisesse. Qualquer livro que eu desejasse ler, qualquer livro concorrido para um trabalho que a professora pedia, ela sempre guardava num cantinho e a preferência e o primeiro lugar na fila dos empréstimos, adivinhem, sempre era eu.
Minha mãe chama o nome das pessoas que ama cantando. Não conheço outra mãe assim. Ela não me chama de Sílvia. Jamais! Nem, aliás, ninguém que me conheça um pouquinho ao menos. As pessoas me chamam de "Tu", me chamam de "Tuka". Minha mãe não. Minha mãe canta meu nome, ela me chama de "TUuU". Meu pai é Ari, mas não pra ela. AriÔôô!! Grita quando a comida está pronta. Ariôôô!!! Chama quando quer lhe falar. Minha irmã? Josiany. Para minha mãe? JôÔ!!!
Dizem que filho de peixe, peixinho é. Pode ser que sim, mas também pode ser que não. Clamo aos céus pela primeira opção em milhares de fatores que vejo nela. Foi dela que herdei também o amor verdadeiro que sinto em escrever. Mas perto dela... Perto dela sou exatamente peixe pequeno. Minha mãe escreve para ler rezando. Não, melhor, ela escreve para ler e nem precisar rezar. Convence com seus textos. Sabe focar, sabe persuadir. Seria de causar inveja a muitos que jamais leram uma única linha de um texto seu. Mas eu li, e como a admiro! A exatidão da palavra certa na frase certa no momento certo. A hora exata em que se permite ser prolixa e o momento em que sabe que tem que ser imediata e objetiva. Minha mãe é uma grande escritora que sequer publicou um único livro. Desse sonho frustrado me incumbiu de realizar por ela, se depender de mim o farei, mãe.
Ela é decidida. Ela resolve. Ela esquematiza. Ela tem na ponta do lápis quase tudo. Ela organiza o orçamento. Ela é matriarca. Meu pai, um militar aposentado com fama de turrão, dentro de casa se dobra à dona Sílvia. E não pensem que ele se envergonha disso. Não! Ele diz: "sua mãe é que sabe, sua mãe é que decide, veja antes com sua mãe". E também não pensem que meu pai é daqueles homens frouxos. Muito pelo contrário! Mas por minha mãe e apenas por ela, se permite a tudo. Pois só ela é a Sílvia dele.
Minha mãe fala sozinha. Reclama, resmunga e delibera com seus botões. Incontáveis vezes sem que me notasse, fiquei quietinha ouvindo o que tanto dizia ali sozinha e saia de meu esconderijo gritando lhe pregando um belo susto: "Ê mãe!!! Falando de novo com o Gasparzinho". Ela se assustava e ria umas vezes, em outras me olhava feio. Eu também falo sozinha, mãe. Minha mãe fala com os bichos. "Tony, a vovó já vai dar comida". "Nico, tá dodói? Vou chamar a doutora Inês pra você". "Kika, gatinha, venha ficar aqui com a vó". Detalhe: ela é a vó porque a mãe sou eu. E eu também falo com os bichos, né mãe?
Minha mãe gosta de caminhar. Gosta de tênis. Anda quase todas as manhãs quando não está com preguiça.
Ela tem iniciativa para tantas coisas, ela é engajada politicamente, ela tem ideais de um mundo melhor, ela luta e briga e xinga pelo o que ela quer. E não está nem aí para o que os outros vão falar e pensar! Hum... Acho que conheço muito bem mais alguém exatamente assim.
Minha mãe é previsível e surpreendente. Sim, contraditória ela é. Sei exatamente o que dirá em determinadas situações e ainda assim, muitas vezes ela consegue me surpreender.
Minha mãe é ela. A mesma com quem travei tantas batalhas, a mesma que me ensinou tantas coisas, a mesma com quem divido tantos momentos, a mesma que não sabe nada de mim e ao mesmo tempo a que melhor me conhece. A quem amo e a quem quero que seja eterna. A que não é nada perfeita e ainda assim é suficiente. À minha mãe, que caminha a meu lado mesmo estando longe. Que torce por mim mesmo que ninguém mais o faça. Que me tenta entender mesmo quando não consegue. À minha mãe, que não foi a pior, não foi a melhor, mas foi e é a minha. A que basta.
Parabéns, mãe.