2 de jan. de 2006
As dimensões do tempo
Já não foi há seis meses que os pais perderam a filha em um acidente, foi no ano passado. Não foi em 20 de maio que a filha perdeu o pai, foi em 2005. Não faz apenas três meses que se perdeu um amigo, foi em outubro de um ano que terminou. Não foi antes de ontem que o namoro acabou, foi em dezembro de um ano que já se foi.
As pessoas são dependentes das dimensões que o tempo possui. É preciso deixar pra trás, é preciso esquecer, é preciso superar muita coisa e, sobretudo: é preciso recomeçar. É por isso que o tempo que passa é tão importante para prosseguir. É por isso que a contagem regressiva que se faz todo dia 31 de dezembro simboliza muito além do que segundos passando no relógio. Simboliza o sepultamento de tudo o que queremos deixar no passado.
Nós seres humanos somos assim: infinitamente sepultando sentimentos, infinitamente cantando parabéns para o que vem de novo – mesmo, claro, que ainda sequer saibamos se um dia esse novo também será sepultado por nós mesmos.
Se o ano foi bom ficará para sempre marcado como o grande ano de nossas vidas. Se o ano foi ruim ficará assim também para sempre como o pior ano de todos – só que já se foi, ficou lá atrás.
O último dia do ano é um prato cheio para muita coisa. Promete-se ser uma pessoa melhor, parar de beber, não mais usar apenas preto. Promete-se o regime de tanto adiado, economizar, encontrar a pessoa certa. Promete-se viver melhor, se divertir mais, arrumar outro emprego. Promete-se o tudo em um espaço de dez segundos que, como se fosse os 45 minutos do segundo tempo de um jogo importante, quer-se desesperadamente marcar o gol da vitória. O gol que fará com que se consagre campeão do mundo, do universo, de qualquer coisa.
Sim, o último dia do ano é como o gol aos 45 do segundo tempo. Quase é possível em meio ao engarrafamento de milhares de carros a caminho da praia, ouvir os pensamentos de cada uma daquelas pessoas ansiosas por pular as sete ondas. “Vou arrumar alguém hoje e começar o ano beijando”, “hoje fumo meu último cigarro, depois nunca mais”, “faço as pazes com meu pai, prometo”. A última chance de sepultar o que aconteceu de ruim e zerar o cronômetro para se trilhar novos rumos. Sim, são esses os 45 minutos do segundo tempo antes do novo campeonato.
Se feliz ano novo? Se feliz novo campeonato? Sim, feliz!
Postado por Tuka
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