Escolha um dia bunda em que o tempo não consegue se decidir se chove ou faz sol. Pegue aquele dia em que você está sozinha, tem tempo sobrando e ainda um troco na carteira que seja suficiente para assistir a um filminho no cinema. Depois, na fila, decida o filme que vai assistir pelo critério de qual começará primeiro. Antes de entrar na sala passe em uma confeitaria, compre e coma imediatamente um doce muito do gostoso, dê a primeira colherada de olhos fechados, de preferência. Daí alivie um pouco a consciência correndo para chegar até a escada rolante, afinal o filme já vai começar. Sente bem no meio da sala, naquela fila que não tem ninguém. Desligue a droga do celular, pois nada pior do que o tal aparelhinho estragando o barato de todos no meio da história. Se ajeite, tire os sapatos e despeje a bolsa na poltrona ao lado. Comece a assistir sem a menor pretensão de que seja algo que fará parte do seu Top List Puta Filmes. Depois de mais ou menos meia hora se dê conta de que se trata de um filme muito legal e que você quer chegar em casa e escrever no blog a respeito.

Pois então: Garota da Vitrine é algo assim – sem a menor pretensão de ser quase nada, e não é que é?
Gostei. Tem Claire Danes (a eterna Juliette do Romeu Di Caprio), tem Steve Martin (o atual inspetor Closeau) e tem Jason Schwartzman – esse último sem papéis de grande destaque, mas mesmo assim um ator muito legal mesmo (aquela cara de tonho engana).
Adaptado por Steve Martin de um romance curto de sua própria autoria, de 2000, essa história passada em Los Angeles é repleta de momentos comoventes, alguns muito divertidos e outros simplesmente bobos – assim como é a vida de todo mundo: uma sucessão de muita coisa.
O filme conta a história de Mirabelle (Claire Danes), uma moça dessas iguais a tantas e até bastante parecida com nós mesmas, nem que seja um pouco. Ela é uma pessoa sem grandes expectativas, mas que sai de Vermont para a chance de que algo melhor lhe aconteça, mesmo que não saiba exatamente o que.
Seus dias se passam atrás de um balcão na seção de luvas da loja Saks. Em casa toma anti-depressivos, alimenta a gata Sylvia, faz companhia a si mesma e desenha – sua verdadeira vocação.
Um belo dia em uma lavanderia conhece Jeremy (Jason Schwartzman), um vendedor de amplificadores e candidato a músico, um rapaz um tanto quanto confuso que não aparenta ser exatamente o seu tipo, mas diante da solidão ela parece crer que nada pode ser assim tão ruim.
Até que pouco depois encontra Ray Porter (Steve Martin), um sedutor e bem sucedido cinquentão que aparece em seu balcão de luvas e tenta conquistar seu interesse em grande estilo. E ela realmente se apaixona e se deixa envolver dia após dia apesar de ser avisada por ele repetidas vezes que não está interessado em nada sério.
O filme todo é uma questão de tempo: uma questão de tempo para que Mirabelle se toque de quem merece ser amado por ela. Uma questão de tempo para que ela tome coragem de voar em direção ao que realmente ama fazer. Uma questão de tempo para que as coisas entrem nos eixos sem que ela sequer perceba.
E, claro, também uma questão de tempo para que envolva totalmente a quem assiste.
Simples, bobo, objetivo, comum, bonito. Entrei no cinema sem a menor expectativa e pretensão, e saí do cinema leve - assisti a um filme legal.
Recomendo.