
Eu combino com palavrões perfeitamente. Quando qualquer pessoa me olha, de cara me acha esquisita - meio fora dos padrões do que pode ser considerado comum: cabelos curtos demais (com fivelinhas demais), olhos grandes demais (com rímel demais), boca grande demais (com gloss demais), pernas compridas e finas, bunda do tamanho de um caminhão pipa, pulsos e dedos mais secos do que os de uma criança de seis anos (malditos criadores de anéis e pulseiras que nunca fazem nada do meu tamanho) e ainda assim, pasmem, consigo ser gorda. Isso fora minhas roupas, que por mais discretas e iguais que sejam, as pessoas insistem em me achar moderninha (moderninha, o cacete). Pois bem, por ser assim todos me consideram descolada (descolada o cacete) o suficiente para poder falar certas coisas que uma pessoa “normal” não falaria (sei, sei).
Por isso é que sou compatível com todo e qualquer palavrão que exista no mundo – as pessoas já me julgam demais, não notariam o que de feio eu poderia vir a pronunciar entre minhas frases.
Mesmo assim, vou confessar: sou uma mulher pudica (hum-rum). Sério. Eu não sei falar tantos palavrões quanto deveria e gostaria, não me sinto à vontade. Vocês aí desse lado que me conhecem aqui deste lado devem estar rindo e pensando que monte de mentira são essas que estou escrevendo. Afinal já me ouviram falar e escrever tantos palavrões que já perderam a conta. Mas eis a verdade: eu falo, mas em alguns casos fico com vergonha. Tudo culpa do meu pai! (Freud, pode se regozijar – essa sim é palavra feia dos infernos!). Sim, tudo culpa dele.
Seu Ari, aquele velho militar aposentado que sempre me censurou ao me ouvir falar o que ele achava que não deveria. Todos os “o que foi que você falou aí, menina?” que ele me disse em todos esses anos. Todos os “caralho, que bosta”, “que filho da puta do caramba”, “mas que putaqueopariu dos infernos”, “ai que porra essa droga”, “vaitománocu antes que eu me esqueça”, enfim, todos os palavrões cabeludos que uma moça jamais deveria deixar sair de sua boca, todos eles que eu nunca disse e aqueles que disse com muita dor na consciência, tudo culpa do meu pai!
Pois só não vê quem não quer que eu e os palavrões somos almas gêmeas. Mas somos amor proibido: feitos um para o outro e eternamente cercados de “não pode, não deve, ninguém está olhando agora”.

Lembro bem de um dia e de como ele marcou para sempre toda minha vida no mundo da boca suja. Eu deveria ter uns 12 anos e estávamos eu e minha amiga Renata brincando na rua quando eu viro pra ela que estava em uma distância considerável e grito: “
Renataaaaaaaaaaaa! Joga logo essa bola, sua bocetudaaaaaaaaaaa!”. Para meu azar completo, seu Ari estava passando bem naquela hora e imediatamente me segura pelo braço:
- O que foi que você falou, menina?
- Nada, pai. Só falei pra Renata jogar a bola.
- Não, Tuka, me diga, o que foi que você falou ou vou você vai apanhar aqui mesmo.
- Pai (já quase em prantos), eu só falei pra Renata jogar a bola! É VERDADE!!!
- Tuka! Se eu realmente ouvi você dizer o que eu penso que disse você não vai conseguir sentar por um mês!
- Não, paaaaaaaaaaaaaaaaaai, eu não disse palavrão nenhum! (Agora em prantos mesmo)
Quanto Renata, a bocetuda em questão, ops! Quando a minha amiga em questão, intercede por mim:
- Seu Ari, a Tuka disse “Renata, joga a bola, sua bochechuda!”.
- Hum (meu pai se deixando enganar ao me ver realmente chorando). Tá bom.
Detalhe: nem meu pai jamais me bateu na vida (mas eu tremo só de lembrar em como ele era convincente quando dizia que o faria) e nem eu sabia o que era ser bocetuda. Verdade. Eu não tinha a menor idéia do que poderia ser uma boceta naquela época. Como não sou burra, aprendi que jamais deveria repetir novamente o que ouço por aí sem saber o significado (ah, isso já está parecendo fábulas de Esopo, que cu!).
Desde então eu falo palavrão (mas não muito), e mesmo que não pareça eu sei que não deveria e fico vermelha. Se você nunca notou ao me ouvir pronunciar algo do gênero, é porque eu sei disfarçar bem.
***
OBS I: Eu ainda não falo palavrão na frente do meu pai. Só a palavra merda e suas variações são permitidas. Então qualquer frase que contenha: merda, bosta, cocô e afins eu posso falar que ele não briga.
OBS II: Renata, a minha amiga desde o berço, hoje é chique e fala mais palavrão do que eu, mas em Londres.