
O patriotismo está por todo lado. Sair de casa vestida inteira de preto, como estou hoje, foi quase uma afronta aos milhares de coloridos de verde e amarelo que encontrei pelo caminho. Hoje todo mundo ostenta com orgulho as cores da bandeira nacional. Hoje todo mundo é brasileiro com muito orgulho e com muito amor.
Durante um bom tempo de minha vida, carreguei comigo a ilusão conformista de que se existia uma época em que todo o povo deste país pode ser feliz sem restrição de idade, raça e posição social é esta, durante a Copa do Mundo. Pensava algo como: “que seja um consolo para este povo tão sofrido, que valha como um acalento para compensar tanto desgosto”. Achei sim, durante muito tempo de minha vida que o povo deste país tinha o direito a esta felicidade incondicional que o futebol proporciona.
No entanto, como ilusão que dura a vida toda muda de nome e vira burrice, me dei conta de que este patriotismo absurdo que existe a cada quatro anos não tem nada de bonito, não tem nada de acalento, não tem nada de nada a não ser euforia barata.
Brasileiro com muito orgulho não veste a camisa da seleção, aprende a votar, elege gente capaz. Um povo patriota luta por seus direitos e não apenas se orgulha de saber a escalação completa dos jogadores de Parreira. Um país de verdadeiros cidadãos não fecha os olhos a impunidade dos que têm dinheiro, a pizza toda semana no congresso, aos privilégios dados pelos deputados e senadores a si mesmos em votações relâmpago.
Duvido muito que se ao invés de encerrar o expediente em dias de jogos da seleção às 14 horas, os brasileiros seguissem o exemplo dos franceses (que pararam o país por causa daquela lei absurda do primeiro emprego) e fossem em massa às ruas protestar o que lhes é devido, este país continuasse a merda que é. Duvido muito que se em dia de eleição, cada eleitor espalhado por este imenso país, se recusasse a sair de casa para votar nesse bando de ladrões, este país não merecesse um mínimo de respeito. Duvido muito que se a cada absurdo que presenciamos de casa, balançando a cabeça indignados, fizéssemos algo para mudar, fôssemos patriotas apenas de quatro em quatro anos.
Patriotismo não é torcer na Copa, nem aqui e nem na China. Mas não serei eu que tentarei convencer alguém disso, não mesmo. E não pensem vocês que torço contra o time de Ronaldinho, óbvio que não. Só não me permito entrar nessa psicopatologia desmedida que incrivelmente faz com que o povo fique ainda mais cego e burro.