Casa da Tuka
 

29 de set. de 2006

Não subestime a dor de uma perda

(Um apêndice dos capítulos ou uma nota de rodapé sem rodapé)

Sempre há luz no fim do túnel, afinal...Que a terceira guerra mundial comece. Que assassinem o presidente da república. Que o Tsunami mate 300 mil pessoas. Nenhuma tragédia neste momento é maior do que a nossa.

Que nossa melhor amiga esteja grávida de gêmeos. Que nosso irmão tenha sido promovido a gerente de uma multinacional. Que nossa mãe seja convidada para fazer uma receita na Ana Maria Braga. Nenhum tipo de felicidade será percebida.

Que venham nos dizer que logo vai parar de doer. Que nos garantam que foi melhor assim. Que nos certifiquem que ele não nos merecia. Nada disso será compreendido. E será tão inútil quanto a tentativa de convencer uma criança de que injeção não dói.

Que nos falem sobre inteligência, amor próprio ou orgulho. Tudo será em vão. Tais palavras deixaram de existir em nossos dicionários por ora.

Que o amor que sentimos nunca irá passar - pensamos. Que a dor que nos consome será eterna - temos certeza. Que a culpa de tudo foi nossa - nos punimos. Que apesar de tudo vale a pensa insistir - insistimos. Que ele ainda irá se arrepender - nos iludimos. Que nos arrastaremos pela vida até que ele volte - e esperamos. Que nunca mais amaremos novamente - e nos adiamos...

Quem nunca perdeu um amor não sabe de nada disso. Não entende que a perda de alguém que amamos dói, não é frescura, não é manha. Essa dor nada tem a ver com rimas fáceis ou metáforas para engrandecer sentimentos como nas poesias. A dor é física – quase como se um elefante sentasse sobre nosso peito e nos impedisse de respirar. Sair da cama é sacrifício, dormir tranqüilamente é impossível, olhar no espelho não significa que nos enxergaremos refletidos. Perder alguém que amamos é navalha na carne.

Desde o minuto em que levantamos da cama até a hora em que nos deitamos novamente, o que queremos é uma resposta para nossos porquês. Por que acabou? Por que não tentamos mais? Por que está com outra pessoa? Queremos um fio de esperança, queremos nos apegar a qualquer coisa, a qualquer palavra, a qualquer sinal remoto de que as coisas voltarão a ser como antes.

Não importa mais nada, não importa o que digam que tente nos trazer de volta a realidade. Nada! Não nos damos conta de que as coisas fugiram do controle, que nada depende do que façamos. O amor se foi de um dos lados, nada o trará de volta. Mas pensar nisso gela nossos ossos e uma agonia assustadora persiste em nos acompanhar nos dando a impressão de que será assim para sempre.

Quando se perde um amor perdemos muito: dignidade, esperanças, sorrisos, perspectivas... Mas entre todas essas coisas, a pior delas e justamente a que não nos damos conta é que quando perdemos um amor perdemos também a nós mesmos. Esquecemos por tempos quem somos, quem fomos, o que gostamos, o que queremos, os motivos que nos faziam o riso fácil, o encanto pelas coisas da vida.

Daí eis que chega o momento crucial em que temos que escolher: ou vamos indo aos tropeções com a certeza de que nossas chances de felicidade findaram ali com aquele amor que acabou. Ou nos reencontramos e nos tornamos ainda mais fortes, mais aptos a amar e sermos amados do que jamais fomos.

Com o perdão da frase clichê, mas que como quase todas, também tem seu valor: a vida é assim mesmo. É... Uma hora a gente chega ao fundo do poço, em outra ao clímax. Cair é preciso pra saber levantar. Perder também. Se a vida continua? Óbvio! Resiliência é uma capacidade de todos aqueles que merecem a felicidade. E sempre voltamos à forma original, mesmo que ainda melhores!

***

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

(Chico Buarque - Olhos nos Olhos)

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Postado por Tuka *
Comments:
Ah querida, eu nem encontro as palavras pra poder comentar o que eu gostaria de comentar.

Vc lê a alma, e espero que esteja certa, que essa fase de reencontro chegue e que seja assim como vc diz, e quem sabe melhor...

Mas como vc mesmo diz, gela os ossos e turva a vista...

Quem sabe, com o tempo (que dizem ser o melhor remédio) não começe a aparecer pra mim um luzinha la no fundo...

Aos tropeços eu ando agora, me parece meio dificil mudar isso, mas sei que ninguém carrega um fardo maior que pode... Apesar da dor tento ter consciência que posso aguentar isso, se não for por mim que seja pelos meus. E que através dele me renecontre.

Não vou fazer desse comentario um texto de lamúrias, pq vc melhor que ninguém sabe tudo que se passa aqui dentro, e tenho é que agradeçer, pelas palavras, pelo telefonema, pelo consolo, pelo entendimento, pela força. E por ter me ajudado e se interessado num momento tão complicado pra mim, sem que ao menos fossemos intimas.

E isso acontece, pq vc vê com os olhos d'alma e sentiu que de alguma forma tudo que vc já passou me serviria de alguma forma, e quando estou triste é nas suas palavras que tento buscar o conforto.

Vc traduz a generosidade e o desprendimento.

Beijos
 
puxa.. q texto mais profundo.. parece q eh td assim mermo.. eh triste.. profundo.. e duro de se sentir..
beijos
 
...
Acrescentar mais o quê?
 
Nossa! Que texto!
Fiquei sem palavras... Já vivi uma situação como esta e sei bem o que significa!
Depois volto aqui para me expressar melhor...
Abraços,
Tom
 
Ah! Obrigado por ter me visitado... Vou voltar sempre aqui!
 
Glub! :(
Nada a dizer, nada que não seja elogiar a intensidade de emoções contidas nesse belíssimo texto.
Minha flor, isso foi perfeito!
lindo dia
beijosssssssssssssss
 
Nossa! Parece que esse texto foi escrito para mim, inspirado no momento que estou vivendo...
Espero do fundo do coração que não seja um retrato do seu momento, porque você me parece uma pessoa muito bacana, e sentir isso tudo é muito ruim! É como você disse, gela os ossos e parece que temos um peso enorme nos obstruindo a respiração...
O que me acalma um pouco são meus amigos... e também é bacana perceber que há quem entenda que não, isso não é frescura nem manha...

Eu entendi perfeitamente o que você disse.

Grande abraço!

Flávia C.
www.fotolog.com/mulherbarbada

P.S.: Li o texto sobre a Quadrilha. Gostei muito. Devo confessar que adoro esse poema.
 
ahhh...q lindooooo o q escreveu....
realmente..td isso faz sentido..dá p/ sentir cada palavra e seu significado..
beijinhus Tuka..

PS: ainda espero a continuação dos capítulos..
 
Nossa amei o texto porque é uma verdade absoluta, vejo-me a uns meses atras nesse seu texto...enfim amei

beijinhos

Paulinha
 
Olá, Tuka!
Quero te convidar a conhecer meu blog.
Quando tiver um tempinho, entra lá, deixe sua opinião e, se gostar,indique aos amigos.
Obrigada!!!
 
Oi Tuka! vim agradecer e retribuir sua visita...adorei seu texto,intenso e verdadeiro, sei bem o que é isso...
beijo
 
A dor é visceral! Mas o que aprendemos com as perdas é nos tornarmos mais completos sem o outro, para que na sua partida não nos sintamos amputados. Se entregar não tem que significar se perder de si mesmo, mas amar mais e melhor a si mesmo para ter condições de amar mais e melhor os outros.Quando a gente decobre que essa dor descomunal não nos mata só nos resta viver e bem! Bjs e ótimo fds.
 
Obrigada, realmente obrigada por exprimir o que to me sentindo hoje.
Sempre ótimos os seus textos.
Beijocas
 
Tuka, já perdi muitos amores.
Pra mim é que nem biscoito.
Vai um, vem oito.
Bjs!
:)
 
Texto complexo... perfeito... completo... não precisa de mais nenhum comentário...
A música do chico eu não conheceia... mas amei...
Grande beijo!!!
 
Você descreveu com muita perfeição este sentimento de perda. É exatamente assim. Uma opressão no peito, uma sensação de não haver mais nada pela frente, e aquele medo do dia seguinte...

Sei como é isso, já perdi um amor muito grande. Mas pude recuperá-lo, felizmente. :-)

Texto maravilhoso, Tuka.

Beijos pra você.
 
É exatamente assim...dói taaaaaanto mas quem já passou por isso sabe que não é drama, é real, é uma dor que nos consome.
A notícia boa? É que seeeeeeempre passa. Claro que com cada um no seu tempo!
 
vamos ao meu tradicional "pqp, andando de skate, chupando pirulito e dando tchauzinho" qdo dou de cara com um texto desses....continuo na primeira fila batendo palmas de pé....
 
Tuka, me tocou muito o que você escreveu. Acho que todo mundo já esteve ou vai estar numa situação como essa, de um lado ou de outro. Adorei o jeito como você descreveu tudo.
 
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Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

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