(Pois Alice não é como mais ninguém)

Alice é daquele tipo de pessoa que quer apenas o suficiente. Nada além. Não tem desejos exorbitantes, a não ser, vez em quando uma bomba de chocolate recheada da padaria.
Tem um carrinho legal que terminou de pagar faz dois meses - o lava a cada 15 dias. Carrega nele seus CDs preferidos e dança enquanto dirige. Nunca quis Ferraris nem nenhum absurdo que sempre soube que não teria. Quando vê desses carros de cinema nas ruas, abaixa o vidro do seu e sorri, admira. Segue a vida enquanto dança seus lá-lá-lás.
Sua casa é na medida do que precisa – nem mansão nem casebre – e o que mais gosta é a parede lilás que ela mesma pintou. Ali tem um universo inteiro de coisas que lhe pertencem porque fazem parte do que é. As lembranças que carrega desde sempre, as pessoas que por ali passaram, as fotos espalhadas em porta-retratos e álbuns, sua coleção de coisas que nunca se dá conta de que coleciona. Tudo o que faz Alice ser Alice se guarda dentro de sua casa – em cada canto dela.
De amores, jamais esperou o impossível: não buscou a beleza absoluta, nem alguém tão inteligente a ponto de ser capaz de lhe explicar física quântica, ou a mais segura e indefectível das pessoas. Não. O amor que escolheu pra ela é uma pessoa normal, com marcas, cicatrizes, com capacidades e qualidades admiráveis, alguém passível de erros – exatamente como ela.
Trabalha com o que ama e jamais, jamais, faz hora extra - tampouco deixa algo por fazer. Mas ela acha que das 9h00 às 18h00 já é tempo demais para se dedicar a coisas que não vão mudar o mundo. Ela sabe que o curso da Terra também não será alterado se for embora pra casa no horário. Prazos, metas, planilhas existirão sempre e ela é muito responsável, no entanto seu maior comprometimento, antes de tudo, é consigo mesma. Fora isso, ela sempre quer ver o sol lá fora antes de escurecer. Acha muito justo.
As más línguas dizem que Alice quer muito pouco da vida.
Ela ri. Dizem que é infeliz.
Que mentira! Bradam aos quatro cantos que é uma pessoa sem muitos objetivos.
Muito se enganam!Alice quer da vida exatamente aquilo que precisa. Seus objetivos não consistem em “ter” mais do que “ser”. Ela fez um filho, escreveu um livro e plantou mais de uma dúzia de árvores. Ela é feliz exatamente porque sabe o que quer e o que não quer - não trava batalhas consigo mesma jamais.