Casa da Tuka
 

28 de nov. de 2006

Somente ela

(Republicação - 17 de outubro de 2004)

Teve medo de não saber mais se portar sem tê-lo a seu lado. Mas em contrapartida pensou que foram tantas as vezes que recomeçou, que bem ou mal faria isso de novo – e da maneira certa, porque todo fim implicava um recomeço, então recomeçaria. Lembrou-se mais uma vez de um filme francês estrelado por Juliette Binoche em que ela dizia: “Cuidado com aqueles que já sofreram porque eles sabem que podem sobreviver apesar de qualquer coisa”. Foram tantos os obstáculos em seu caminho que prometeu a si mesma que se houvesse uma próxima vez não mais sucumbiria, não se entregaria.

E lembrou das manias, dos pequenos detalhes que iam desde o jeito em que ele dormia quando estava exausto, até a forma metódica em que comia: mexendo bem, pegando aos pouquinhos e comendo devagar para apreciar o sabor da comida. Chora ao pensar disso. E nunca achou que sentiria falta de coisas que nem sabia que prestara atenção no meio de tanta correria dos dias que passavam. Os dias que passavam e levavam com eles a história de duas vidas, seus medos, suas conquistas e cumplicidades – suas vitórias e derrotas superadas, suas tantas coisas que estavam tão repletas deles dois. Só dos dois.

Pensou que em meio de tanta alegria compartilhada, de tanta vida dividida, a tristeza e a mágoa prevaleceram mais do que deveriam e foram várias as vezes. E se perguntou porque as pessoas se punem dessa forma. Pensou em Chico naquela canção que agora insistia em pular em sua memória – há tanto não lembrava dela: “na fotografia estamos felizes... Meus olhos molhados, insanos, dezembros, mas quando eu me lembro são anos dourados - ainda te quero...”. Olhou mais uma vez para todos os momentos eternizados nos porta-retratos: sorrisos, beijos, abraços, olhares... Onde estavam todos aqueles momentos que ficaram esquecidos em meio a tanto choro e dizeres desnecessários? Sentia falta de quando podiam gritar, brigar e extravasar os demônios e ainda procurarem um pelos pés do outro durante a noite, e se isso acontecesse significava que o perdão vencera mais uma vez. Já naquela noite ela temia que ele permanecesse distante. Mais lágrimas desciam contornando as linhas de seu rosto.

Tinha que aprender a calar, falara demais. Tinha que aprender a chorar para dentro, lágrimas demais afogam o amor. Tinha que aprender a se perdoar, se exigia muito.

Fez as malas, mas no fundo esperava um abraço. Se a abraçasse abraçaria de volta. Olhava as coisas espalhadas a seu redor, mas tudo o que desejava era um pedido de desculpas. Se pedisse desculpas, desculparia. Apesar do silêncio, ainda ouvia palavras ditas com raiva, e tudo o que queria ouvir era para que ficasse - e ela ficaria.

Sentiu-se tão frágil e desprotegida quando uma flor caída no chão em que milhares de pés pisam todo o tempo. Sentiu-se como estivesse prestes a ser esmagada e nada pudesse fazer a não ser esperar que o vento mudasse sua direção e a levasse para um lugar seguro. E nem o vento veio a seu favor – ela mesma teria que se proteger nem que para isso precisasse arranjar forças e arrastar-se para longe. Longe do único lugar e da única pessoa no mundo que queria estar perto.

Deitou na cama e pensava sobre o que faria da vida. Sentiu um braço a laçando – abraçou em resposta. Ficou em silêncio e teve certeza de que poderia ouvir o bater de seu coração desesperado dentro de seu peito – parecia que queria falar por ela. Ouviu o pedido de desculpas. Fez o mesmo e desculpou. As palavras raivosas foram aos poucos se dissipando em sua mente, embora ainda a machucassem. “Fica”. E ela ficou.

“Me vejo a teu lado, te amo? Não lembro... Parece dezembro de um ano dourado, parece bolero. Te quero, te quero... Dizer que não quero, teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais.”

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Postado por Tuka *
Comments:
Eu me perguntei isso tantas vezes, mas sabe, acho que não tem resposta. Apenas temos que guardar o que vivemos, aprender com isso e seguir enfrente, deixar que o rio de lágrimas secar, pq no minimo essa agua toda fará nascer flores...

Beijos
 
Eu simplesmente amo essa música! E o seus texto ficou belíssimo, como sempre...
Ps: Escrevi um post sobre meu gato, passa lá!
Bjos!!
 
Ficou muito bom. Adorei a menção ao Chico. Eu gosto de misturar canções nos textos (meio óbvio, mas é meu jeito musicado de ver a vida). Aliás, no seu texto caberiam outras tantas músicas, mas me lembrei logo de uma do Roberto Carlos, "Costumes" - "então eu me vejo sozinha como estou agora e respiro toda liberdade que alguém pode ter. De repente ser livre até me assusta, me aceitar sem você certas vezes me custa. Como posso esquecer dos costumes se nem mesmo esqueci de você..."
 
Nossa, isso é tão dificil. Ainda bem que "ela" ficou! Muito bonito o texto! bjsito o texto! bjs
 
Poxa tukinha... vc tem escrito umas coisas tão bonitas... que fazem doer meu coração partido ao mesmo tempo em que fazem desabrochar um sorriso em meus lábios... eu particularmente me lembrei de uma música.. que acho que até não tem muito a ver... mas veio à minha mente enquanto lia essa maravilha... acho que é da Adryana e a Rapaziada e diz: "No fim da noite que eu não quis você... Que eu tinha todo o tempo pra viver... Que o meu coração foi despertar... A solidão... Eu descobri que nada sei de mim... Eu digo não mas eu te amo, sim... E sem você não sei nem me cuidar"
Nossa... acho que já escrevi demais... rsss
Me empolguei... rss
Beijosss
 
Tuka, Tuka... inspirada como sempre. Adoro esses textos sensíveis, aos quais facilmente podemos aplicar uma situação já vivida (com uma ou outra adaptação).
Muito bom.

Beijocas. :-)
 
Li o título e não vi o (Republicação)...assim que li a primeira frase do texto pensei que já conhecia o texto de algum lugar e fui até o final para ver de quem era, mas não tinha créditos....voltei pro início e procurei o autor, aí que vi o (Republicação)....pensei: "ah, é dela mesmo, de algum tempo atrás!"....este foi um dos teus textos que mais me "tocou"!!! Lindo, lindo, lindo!
 
Lindo texto, Tuka!
 
menção honrosa ao meu idolatrado salve salve Chico...que texto, bonita, que texto...............
 
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Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

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