
Faz um tempo que terminei de ler o mais novo livro incluído em minha “Top List Puta Livros”: O Diário do Farol de João Ubaldo Ribeiro, lançado em 2002. Falar que o bahiano arretado é um escritor fenomenal pode ser pra lá de batido, mas que se foda: João Ubaldo Ribeiro é FENOMENAL!
O livro é o relato de um padre inescrupuloso, que, isolado em uma ilha com um farol batizado de Lúcifer, narra os mais absurdos atos cometidos por ele durante sua vida motivado primeiramente sob a desculpa de vingar-se dos maus-tratos do pai e depois da mulher que o desprezara. É absolutamente um manual da falta de caráter e dissimulação que conta em detalhes todas as artimanhas da pessoa que acredita que o bem e o mal são exatamente uma coisa só. Ou seja: a mesma pessoa que comete o bem neste mesmo ato pode estar cometendo o mal por diversas razões.

Seu maior argumento é o de que todos nós somos iguais e a partir disso o leitor se vê envolvido em uma série de manipulações, mentiras e crimes, e, assustadoramente, se percebe identificado com todas as maldades milimetricamente calculadas citadas na obra. Somos nós realmente apaixonados pela maldade do mundo como decreta a história? Somos realmente seres em quem jamais se deve confiar como diz a epígrafe do livro? Como é que secretamente carregamos a incrível capacidade de cometer as maiores aberrações em função de nós mesmos sem que sejamos verdadeiramente maus?
A narrativa do padre, acompanhada do início ao fim do mais absoluto cinismo, ofende o leitor chamando-o de burro e incapaz a todo instante e tenta com todas as forças dissuadi-lo a abandonar qualquer noção de moralidade. Ele joga por terra o que chama de “pseudoverdades insustentáveis” e despreza a todos aqueles que acredita dependerem das mesmas.
João Ubaldo colocou em palavras a essência do que somos capazes mesmo que não saibamos? Não sei. Mas senão isso, tenho certeza de que ao menos desmistificou a maldade a ponto de que possamos acreditar que no mundo em que vivemos tudo é realmente possível por mais impressionante que possa parecer.