
Se naquele dia, apesar de tudo o que aconteceu, ela soubesse o que ainda estava por vir não teria reclamado tanto nem estado à beira de um ataque de nervos.
Acordou atrasada porque a droga do despertador a deixou na mão. Levantou correndo, deu uma topada com o dedão, xingou tudo o que pode, entrou no banho e, ainda, com a cabeça cheia de shampoo para cabelos oleosos, a água ficou gelada. Saiu chorando e terminou de enxaguá-los na pia –
que belo jeito de se começar o dia. No armário procurou a saia preta nova e linda que havia comprado uma semana antes. Colocou também uma blusa branca sem graça, o sapato de verniz com o qual gastara quase o salário do mês todo e a bolsa preferida – aquela do forro furado.
Engoliu um café preto horroroso acompanhado de uma bolacha murcha, pois era a única coisa na despensa dentro do prazo de validade – definitivamente precisava ir ao mercado. Ao sair de casa a saia ficou presa na porta do apartamento e rasgou ao primeiro passo em direção ao elevador. Voltou gritando de raiva e bem neste momento o vizinho abriu a porta - não respondeu ao bom dia que ele lhe disse. Colocou outra saia e só depois notou que estava manchada de chocolate. Não tinha mais tempo de procurar outra coisa. Iria assim mesmo.
O elevador, justo hoje, quebrado. O de serviço com uma mudança gigante do 509.
Raios! 21 andares escada abaixo. E lá foi ela.
Na rua, greve dos metroviários –
como chegaria? Maldita cidade caótica! Chegou: quatro horas atrasada e com uma pilha de pepinos para resolver. O telefone tocando a cada dois segundos e o chefe a lembrando da reunião com o representante estrangeiro.
Onde estava sua agenda com todas as anotações do que tinha que ser discutido na tal reunião?? Onde? Acabara de lembrar que a deixara em cima da televisão, um lugar estratégico para que justamente não esquecesse de levá-la.
Era uma retardada mesmo!
Foi ao banheiro porque sentiu algo estranho.
Não podia ser! A menstruação resolveu aparecer duas semanas antes? Não tinha absorvente. Sempre tão precavida era a que emprestava às amigas em casos de emergência, desta vez não tinha um sequer.
Tinha que dar uma fugida para ir a farmácia. No caminho notou que sua meia desfiou em um lugar impossível de esconder. Desequilibrou-se ao olhar o estrago e deu um mau jeito no pé direito, aquele mesmo que não ficava uma semana ileso – quando não eram os calos, eram as torções.
Na prateleira, não encontrou o
super-abas-ultra-seco, mini-blaster-plus que era o seu preferido. Tudo bem, levaria o
mega-fino-dry-multi-abas mesmo. Pagou com uma nota de cinqüenta. Devolveram o troco em notas de um real: 47, 34 – tudo em notas de um real (fora as moedas dos centavos). Saiu puta da vida.
Esperando para atravessar a rua no sinal que estava fechado para pedestres, uma criança no colo da mãe desembestou a mostrar-lhe a língua.
Que dia maravilhoso!
Desviou o olhar do infante terrível e se deparou com uma pessoa., e, eis que, pela primeira vez em sua vida, apaixonou-se à primeira vista.
Esse negócio não era lenda então – amores à primeira vista existiam de verdade! Ela ainda não sabia, mas ali do outro lado, a pessoa que observava também se apaixonava por ela naquele mesmo instante.
Sorriram um para o outro.
Que dia perfeito!