
Poucas coisas em minha vida têm a palavra comum como significado – aqui deste lado, um simples aniversário pode render acontecimentos esdrúxulos. E ontem, tudo o que eu queria era apenas um dia comum. Óbvio que não consegui.
Fui acordada meia noite e quarenta.
Amigos ligando? Interfone tocando? Presentes chegando? Não, leitores, nada disso. Era apenas uma bela de uma dor de dente. “
Não escova esses dentes, Tukammm?” – o primeiro que perguntar isso vai levar uma piabada na orelha, juro.
Óbvio que escovo, oras! Ganhei um maldito canal justamente devido a um clareamento – fui querer ser
munitam e me fodi.
Mas ok, voltando... O dente doía e liguei pro dentista:
- Oi fulanooom, meu dente dói.
- É? Quer vir aqui e fazer outro curativo? (Adendo: eu havia ido lá na sexta) O tratamento só poderei começar segunda, não tenho horário.
- Não, fulano, quero começar o tratamento. Me ajuda, não quero mais um monte de anestesia pra ter que abrir esse dente de novo na segunda.
- Não tenho horário, só segunda. Fala com a secretária.
Passa o telefone pra fulana.
- Aloaaa.
- Fulana, me encaixa aí! Vou em qualquer horário (eu já estava perdendo a dignidade, era fato).
- Não vai dar não, o último paciente está marcado para as 19h30, deve ficar aqui até as 20h30.
- Eu vou nesse horário! Amanhã é feriado, fulana!
- Ah não vai dar, não. Eu tenho que ir embora, se você quiser vir fazer o curativo apenas pode vir agora, mas o tratamento mesmo só segunda.
Daí perdi a compostura:
- Escuta, você é dentista?
- Não, sou auxiliar.
- Então. Vá embora! Eu preciso do dentista, não de você! Quem disse que você precisa ficar aí? Vá embora!
Senti que magoei a mulher. Mexi com os brios da coitada, vai ver que ela, até aquele momento, achava que sua presença ali era imprescindível para segurar aquela merda de sugador.
Auxiliar de dentista de cu é rola, minha gente! Ô raça!
- Liga daqui a pouco então, daí você fala com ele.
Não liguei, estava com muita raiva.
Fui então pro meu dia de “princesa”. Sim, porque apesar de chata, sou amada e as moças do salão que freqüento resolveram comprar bolo, cantar parabéns e fazer minhas unhas e cabelos de presente de aniversário – tudo de graça. Legal, né?
- Ai, Tuka, hoje vou pintar suas unhas de vermelho intenso!
- Não! vermelho, não!
- Ah, Tuka! Faz algo diferente hoje pra comemorar seu aniversário!
- Vermelho, não! Vermelho, não!
- Então que tal
Rebu?
- Rebu também, não! Isso também é vermelho! E tá doida que eu vou pintar minhas unhas com uma cor chamada rebu? Minha vida já é um rebu! Isso deve dá até azar, Teca!
- Ai Tuka, você é uma chata!
- Tá, eu sei, agora pinta minhas unhas de
Renda e fica quieta.
Ela não ficou, resmungava e falava entre uma esmaltada e outra que eu estava ficando careta. Talvez esteja mesmo, mas não me venha com
Rebu, oras!
Cantaram parabéns - o bolo estava bom. Me convenceram que eu tinha que ir a uma dentista amiga delas que ficava ali na mesma rua. Fui.
Nota mental: Nunca, jamais, acatar conselhos de amigas cabeleireiras e manicures. Perdi uns quarenta minutos lá e no final a mulher me vira e diz que pra fazer o tratamento do tal dente sairia pela bagatela de quatrocentos reais porque ela não era credenciada no meu convênio.
É? Hum. Obrigada. Tchau.
Nessas alturas minha dor já tinha passado. Parei novamente no salão e as meninas gralharam e me ajudaram a falar mal da dentista careira dos infernos. Então fui almoçar e me afoguei num Big Mac sem culpa. Tive dor de barriga.
A partir disso decidi que era um sinal para eu me enfiar em casa e sair só depois que a droga do aniversário passasse. No elevador fiquei presa. Apertei absolutamente todos os botões enquanto chutava e fazia gestos irados para a câmera na tentativa de que o porteiro Zé entendesse e mandasse alguém me socorrer. O cretino pelo jeito imaginou que eu apenas estava dançando algum hit bacana do meu ipod e me ignorou. Uns cinco minutos depois o elevador resolveu abrir e desci seis andares a pé até meu apartamento. Elevador maldito.
Eis que de noite fui invadida por uma súbita euforia de aniversariante, então chamei alguns amigos para comemorar o maravilhoso dia que tive em um boteco fuleiro nos arredores da Avenida Paulista. Já estava preparada para que o garçom derrubasse cerveja em mim ou para qualquer coisa do gênero – mas nada aconteceu. Foi ótimo e no final das contas o dia ainda foi especial.
Saldo do dia: