Das cartas de Marília
Não, eu nem era tão moderna e descolada quanto você e todas as pessoas a nossa volta pensavam que eu fosse. Era um tanto de disfarce para não mostrar que por baixo daquela cara de “tô nem aí” estava justamente uma menina boba à espera de um amor fulminante e eterno. Um amor que fosse qualquer coisa de espetacular com tanto que fosse você ali comigo – e você bem lembra que quando estávamos juntos era mesmo assim: espetacular.
Você e eu éramos uma antítese descarada. Eu sempre de esquerda, revolucionária e você um ingênuo extrema direita. Tudo te chocava, qualquer coisa que não seguisse os padrões te apavorava. Certinho você. Tresloucada eu. Tão fácil nossas idéias discordarem assim como era também normal que ninguém jamais entendesse porque é que uma mulher como eu queria estar ao lado de alguém como você. Tão irritantemente comum. Sim, comum.
Tentei me convencer de que as diferenças eram bobos detalhes e você foi ótimo quando passou a ter meus filmes preferidos como os seus preferidos, a ouvir minhas canções preferidas como sendo também as suas. Do meu lado eu fingia divinamente que você tinha opinião própria e não estava se tornando uma daquelas pessoas que repetem o que sequer compreendem. Do seu, você fingia que aquele mundo novo era compatível à sua vida e a tudo o que você queria.
E no mais, também meus jeans rasgados não combinavam com suas calças com vinco. Minhas botas altíssimas te deixavam menor do que eu. Meus cabelos armados e vermelhos contrastavam com seu castanho-liso-tedioso. Meus olhos castanhos maquiados em um preto assustador apagavam o verde delicado dos seus. Éramos antítese sim, mas agíamos como meros paradoxos tentando entender e justificar as diferenças com o que tínhamos de melhor. Só que sequer sabíamos direito o que tínhamos de melhor.
Eu te mordia e você alucinado, sequer desconfiava que aquilo era o equivalente a um singelo beijo de olhos fechados. Eu arrancava suas roupas em um piscar de olhos e você, encantado, se deixava guiar em um ritmo que em nenhum romance seria visto como um mero “fazer amor” – mas era.

Eu te comia. Eu te enfiava em mim até que seus olhos não focassem mais meus movimentos ali em cima de você. Aquele encaixe perfeito que no final era apenas compreendido como a mágica de uma química perfeita. Mas era mais: era raro. E eu pegava suas mãos e fazia delas as minhas próprias quando fechava meus olhos e as esfregava em mim. Você gostava, ficava em um transe absurdamente delicioso. Eu sei, realmente eu era a fêmea que qualquer homem gostaria de ter, exatamente como você dizia. Mas acontece, que eu não queria pertencer a nenhum outro, só a você.
Me come! Vem dentro de mim! E você obedecia sem desconfiar que aquilo tudo era a mais profunda prova de amor que eu poderia oferecer a alguém. E eu te amava.
No final das contas o incomum era você que possuía alguém tão livre e diferente. E eu? Eu havia me tornado justamente o clichê ao qual todos julgavam que eu jamais sucumbiria: aquele de esperar a reciprocidade de um amor, mesmo um tão cheio de lacunas quanto o que você me ofereceu.