Casa da Tuka
 

15 de fev. de 2007

As antíteses e os paradoxos de um amor

Estreando a antítese de Alice: Marília

Das cartas de Marília

Não, eu nem era tão moderna e descolada quanto você e todas as pessoas a nossa volta pensavam que eu fosse. Era um tanto de disfarce para não mostrar que por baixo daquela cara de “tô nem aí” estava justamente uma menina boba à espera de um amor fulminante e eterno. Um amor que fosse qualquer coisa de espetacular com tanto que fosse você ali comigo – e você bem lembra que quando estávamos juntos era mesmo assim: espetacular.

Você e eu éramos uma antítese descarada. Eu sempre de esquerda, revolucionária e você um ingênuo extrema direita. Tudo te chocava, qualquer coisa que não seguisse os padrões te apavorava. Certinho você. Tresloucada eu. Tão fácil nossas idéias discordarem assim como era também normal que ninguém jamais entendesse porque é que uma mulher como eu queria estar ao lado de alguém como você. Tão irritantemente comum. Sim, comum.

Tentei me convencer de que as diferenças eram bobos detalhes e você foi ótimo quando passou a ter meus filmes preferidos como os seus preferidos, a ouvir minhas canções preferidas como sendo também as suas. Do meu lado eu fingia divinamente que você tinha opinião própria e não estava se tornando uma daquelas pessoas que repetem o que sequer compreendem. Do seu, você fingia que aquele mundo novo era compatível à sua vida e a tudo o que você queria.

E no mais, também meus jeans rasgados não combinavam com suas calças com vinco. Minhas botas altíssimas te deixavam menor do que eu. Meus cabelos armados e vermelhos contrastavam com seu castanho-liso-tedioso. Meus olhos castanhos maquiados em um preto assustador apagavam o verde delicado dos seus. Éramos antítese sim, mas agíamos como meros paradoxos tentando entender e justificar as diferenças com o que tínhamos de melhor. Só que sequer sabíamos direito o que tínhamos de melhor.

Eu te mordia e você alucinado, sequer desconfiava que aquilo era o equivalente a um singelo beijo de olhos fechados. Eu arrancava suas roupas em um piscar de olhos e você, encantado, se deixava guiar em um ritmo que em nenhum romance seria visto como um mero “fazer amor” – mas era.

Eu te comia. Eu te enfiava em mim até que seus olhos não focassem mais meus movimentos ali em cima de você. Aquele encaixe perfeito que no final era apenas compreendido como a mágica de uma química perfeita. Mas era mais: era raro. E eu pegava suas mãos e fazia delas as minhas próprias quando fechava meus olhos e as esfregava em mim. Você gostava, ficava em um transe absurdamente delicioso. Eu sei, realmente eu era a fêmea que qualquer homem gostaria de ter, exatamente como você dizia. Mas acontece, que eu não queria pertencer a nenhum outro, só a você. Me come! Vem dentro de mim! E você obedecia sem desconfiar que aquilo tudo era a mais profunda prova de amor que eu poderia oferecer a alguém. E eu te amava.

No final das contas o incomum era você que possuía alguém tão livre e diferente. E eu? Eu havia me tornado justamente o clichê ao qual todos julgavam que eu jamais sucumbiria: aquele de esperar a reciprocidade de um amor, mesmo um tão cheio de lacunas quanto o que você me ofereceu.

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Postado por Tuka *
Comments:
Tuka! Sou assim como Marília. Não sei porque as pessoas me olham e de cara me classificam de super moderna, de cool e tal. No fundo me enquadro nos clichês mais abomináveis, aqueles que a gente faz questão de esconder ou pelo menos não falar a respeito.

Ai, ai. Terão mais textos da Marília né? Estou loca para ler!
 
tuka querida! Achei marília mais a minha cara do que alice. Algo assim: alice é o que eu gostaria de ser mas marília é o que eu sou hahahahahahahah.

Adorei!
 
Eu sou Alice e também sou Msrilia, sou bipolar,fazer o que.Ameiiiii o texto, muito bem escrito, menina você tem o dom.Um beijo grande!!
 
Adorei o texto.
O amor é assim: capaz de unir perfeitamente os desiguais, ainda que mais tarde a relação deixe de funcionar. Ou continue a funcionar. É tudo imprevisível.

Beijos, Tuka! :-)
 
Esta estória me lembra minha juventude, uma paixão avassaladora por um estudante de engenharia caretésimo.

Levou um bom tempo para encontrar o engenheiro caretésimo que encaixasse mas encontrei.

Boa estória, valeu.
 
Jesus! TO eu aqui em dúvida, meio Alice, meio Marilia... Acho que sou uma mistura das duas, as vezes pendo mais pra alice, as vezes mais pra marilia...

Tripla personalidade?

O texto é MARAVILHOSO!

Beijos
 
Tuka, você é tão jovem é ainda assim retrata com tanta facilidade o mundo feminino como se tivesse na casa dos 50 hahahahahah. Isso é talento, menina. Para chegar a conclusões como as que você já relatou aqui no seu blog eu demorei algumas décadas, tenho quase 60 anos. Cheguei aqui sem querer e cá estou maravilhada com seus textos. essa maneira descompromissada em agradar, esse jeito despreocupado e real que possui é deveras o que possui de melhor e o que faz com que tanta gente adore ler tudo o que escreve. Desde o seu mau humor descomunal que já percebi que tem - hfghahahahaha até o maravilhoso senso cômico, não tem como enjoar de ler isso aqui! Comecei de manhã e até agora estou aqui as voltas com seus escritos! Parabéns a você por esse talento nato (sim porque ninguém aprende a escrever assim como você, quem não tem o dom no máximo constroi uns textos "bonitinhos e só)e parabéns aos seus leitores por perceberem que você não é uma blogueirazinha qualquer como tem aos montes por aí. Virei fã!
 
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Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

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