Casa da Tuka
 

19 de out. de 2007

Adeus mundo cruel?

Quando criança, eu devia ter lá os meus oito anos de idade, o avô de um amigo se matou. Ele subiu em uma cadeira, amarrou uma corda no teto do banheiro, fez um laço por onde colocou o pescoço e soltou seu corpo em seguida. Lembro que meu amigo me contara aquilo mais envergonhado do que triste, pois àquelas alturas já o tinham incutido todas as explicações de pecado que pudessem existir.

Até aquele momento, eu jamais ouvira falar em suicídio, mas lembro que me sentei na calçada a seu lado, o olhei com a ingenuidade que só uma criança de oito anos pode ter, e lhe perguntei: por quê? Óbvio que ele não soube me responder. A verdade é que eu sequer tinha idéia de quais respostas esperar, mas imaginei que precisasse haver um motivo.

Desde então, várias outras histórias de suicídio permearam minha vida, e talvez tenha sido por isso que desenvolvi um certo fascínio pelo assunto. Um fascínio macabro, não nego. Mas o assunto é indiscutivelmente instigante.

Eu nunca me interessei pela forma como as pessoas decidem se matar, mas sim por seus motivos. Sempre me perguntei: o que pode ser tão grave, tão ruim, tão incorrigível, que faz com que uma pessoa decida que já não quer viver? O menino lindo de 16 anos que se envenenou por ser gay, a médica de 30 anos, mãe de uma garota de três, que se atirou do prédio por que o marido estava tendo um caso. Quais foram seus reais motivos além desses que todos presumem? Por que algo que é totalmente superável para uns pode ser a pior coisa do mundo para outros? Eu sempre procurei tentar entender – sem os olhos de quem julga nem a certeza do veredicto do pecado que a igreja decreta – apenas a tentativa de compreensão.

Mas a única razão para estar falando sobre isso aqui na Casa é porque assisti ao documentário The Bridge que fala exatamente sobre suicídio. De janeiro a dezembro de 2004, Eric Steel e sua equipe filmaram tudo o que aconteceu na famosa ponte suspensa de São Francisco, a Golden Gate, o local recordista em números de suicídios no mundo todo. Só conseguiram autorização para isso com a mentira de que o filme visava mostrar a interação entre os turistas, o movimento e a paisagem fabulosa do local, pois evidentemente dizer que queriam flagrar suicidas não iria agradar às autoridades.

Foram usadas duas câmeras. Uma fixa, com plano geral da extensão da ponte, e uma outra de alta precisão para captar as pessoas em close. E esta segunda era usada associada ao instinto do profissional que a manipulava, pois ele precisava focar naquele que por um motivo ou outro parecesse estar disposto a escalar o parapeito e saltar. Segundo o diretor, sempre que notavam a iminência de um salto, chamavam a guarda costeira, pois salvar uma vida era mais importante do que o filme. Mesmo assim, 24 pessoas finalizaram suas vidas naquela ponte no ano de 2004 – as histórias de seis delas são contadas em The Bridge.

Apesar de extremamente rápidas, as cenas das pessoas se jogando impressionam e causam bastante incômodo. O lugar cheio de turistas felizes, atletas praticando esporte na água, pessoas trabalhando, a vida ao redor seguindo seu curso como em todos os dias. Então alguém fala ao celular por alguns minutos. De repente larga o aparelho no chão, sobe ao parapeito e em poucos segundos um assustador “tchibum” acontece. Pronto: 70 metros de altura numa queda de velocidade aproximada de 200 km por hora e a pessoa não existe mais.

O documentário, além dos suicídios, mostra entrevistas com testemunhas que estavam no local, familiares e amigos das pessoas que se mataram e tenta dar uma resposta a esta pergunta que me permeia a mente desde o avô de meu amigo: por quê? Doenças mentais, sofrimentos diversos, motivos também, no final das contas, ninguém, nem os próprios familiares e amigos e nem o expectador do filme, formulam uma compreensão exata para nada.

Steel foi recusado em festivais do mundo todo, e se por um lado, há pessoas que o acusam de querer repercussão com o polêmico tema, há uma ala que considere que ele tenha feito um alerta para que finalmente construam uma barreira de proteção na ponte. Mas, com um tom até surpreendentemente poético – beneficiando-se da paisagem maravilhosa e trilha sonora de primeira - e espantando a linha Michael Moore pra bem longe, o documentário consegue falar de um assunto extremamente delicado sem ser sensacionalista. Mostra finais, o anseio pelo fim, o arrependimento de quem se dera conta de que não queria morrer quando já havia pulado (esta pessoa sobreviveu milagrosamente ao salto) e até quem, em questão de segundos, conseguira impedir um dos suicídios. E embora não satisfaça a grande dúvida sobre os motivos que encorajam alguém a encerrar a própria vida, vale a pena ser visto.

Eis o trailer:



Ps: Comentem sobre o tema, contem experiências pessoais se quiserem, digam qualquer coisa, mas, por favor, não percam tempo falando sobre dogmas religiosos, pecado, limbo, inferno e afins. Eu tenho sono com discussão religiosa. Tenho certeza de que vocês leitores, têm mais conteúdo do que apenas essa premissa basiquinha. Ah! E quando assistirem, voltem para me contar o que acharam.

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Postado por Tuka *
Comments:
Acho que o suicídio é o famoso botão MASTER do foda-se! Chega desse mundo que deu errado! Acho uma forma digna de sair de cena mas revoltante para os que ficam.
 
Vi uma reportagem sobre este document�rio e me intigou a curiosidade em assistir.Quanto ao assunto devo confessar que me desperta um certo interesse m�rbido tamb�m, tanto que vez por outra leio a biografia de personagens famosos que optaram por este caminho (Kurt Cobain, Florbela ESpanca, Virginia Woolf,Ana Cristina Cesar)..Enfim..Acho que quem comete suic�dio alia um pessimismo imenso (n�o v� sa�da), uma dose de depress�o e um tanto de covardia em encarar as dificuldades...� so um "achismo"..� complexo demais...abra�o
 
Oi Tuka...eu vivi uma experiência...um amigo e vizinho de 20 anos cometeu esse ato que eu nem gosto de falar nome com um tiro na cabeça no hall de entrada da casa dele. Foi muito triste pela situação em si, pela mãe que o encontrou e depois sabermos que ele fez tudo isso por ter feito um pacto com outros amigos. Crê? Os outros ainda hoje estão vivinhos...beijos e boa semana.
 
Vc já reparou que a maioria das pessoas que se matam estão descalças? Tenho uma curiosidade absurda de saber o pq. Coisa besta, né? Eu sei!
Não julgo quem se mata, pq deve ter chegado num ponto onde nada mais tem solução. Acredito q seja o nível máximo de depressão.
O youtube tirou o vídeo do ar.
bjks,
Mari
 
Engraçado que eu leio muito sobre suicidas a profile de gente morta do orkut, é impressionante a quantidade de suícidios que acontecem no Brasil, são muito, de n tipos de pessoas com n tipo de problemas diferentes...
Acho que pessoas desse tipo apresentam problemas a todo momento, e muita gente trata a coisa como bobeira, palhaçada, pessoas que tem tendências suicidas, precisam de tratamento psicologico, e muitas das vezes sofrem de deboche, de chacota é foda.
E o que mais me impressiona é a quantidade de jovem q faz isso...
É triste..
E já abri meu emule e coloquei pra baixar o filme...
Beijos
 
Engraçado que eu leio muito sobre suicidas a profile de gente morta do orkut, é impressionante a quantidade de suícidios que acontecem no Brasil, são muito, de n tipos de pessoas com n tipo de problemas diferentes...
Acho que pessoas desse tipo apresentam problemas a todo momento, e muita gente trata a coisa como bobeira, palhaçada, pessoas que tem tendências suicidas, precisam de tratamento psicologico, e muitas das vezes sofrem de deboche, de chacota é foda.
E o que mais me impressiona é a quantidade de jovem q faz isso...
É triste..
E já abri meu emule e coloquei pra baixar o filme...
Beijos
 
Quase nunca comento nos blogs que leio, mas hoje precisava dar minha opinião. Por um tempo pensei até em cometer suicídio, poucas pessoas sabem disso, mas minha principal motivação era o não ver mais razão e nem caminhos que pudessem me tirar daquela angústia em que vivia. Pensei por muito tempo em como fazer e um dia eu estava tão seseperada que disse pra minha mãe que queria morrer, que não suportava mais nada e que isso me consumia e a meu ver era muito pior do que morrer de uma vez. Meu pai então veio falar comigo, me disse coisas que me fizeram pensar. Depois disso ainda fiquei muito tempo com essa idéia na cabeça mas foi passando, e não nego que ela ainda apareça vez ou outra mas agora aprendi a controlar um pouco. Não é por ser covarde que uma pessoa comete suicídio, é por nõa ver mais motivo nenhum para viver. Você pode ter de tudo, do bom e do melhor mas não é isso que fará a sua vida ter sentido. As pessoas cada vez mais vem perdendo a identidade e se tornando mais um qualquer andando na rua, é essa desumanização que faz uma pessoa que tem tudo para ser feliz não ver valor nisso. Depois de ter passado por isso ainda conheci uma pessoa muito especial, uma pessoa que amei muito e que por várias vezes tentou suicídio. Ele tem vários problemas psicológicos e é uma pessoa muito difícil de se conviver, um dia me disse que fazia isso porque não via futuro no mundo, e nem um porque tentar de novo. Todas suas experiências de melhorar haviam fracassado e as pessoas só o viam com pena agora. São sentimentos que pessoas que nunca passaram por isso não podem deduzir saber, é um desespero incalculável que não pensa no futuro e nem nas possibilidades de melhora, é simplismente perder a esperança de que qualquer ação venha a ser benéfica. É um estado em que até mesmo aquela comida que você adora perde o sabor. É realmente desesperador. Não podemos mesmo imaginar o que se passa na cabeça de uma pessoa que está neste estado.

Sei que escrevi bastante, mas espero que possa explicar um pouco melhor.

Abraços!
 
Tuka
Eu sempre entendi perfeitamente o suicidio. (soa estranho, né...) Apesar de acreditar na vida após a morte, não é isso que me faz entender o suicidio, mas sim a firme posição que cada um tem o direito de fazer o que bem entende com sua vida e seu corpo (e isso inclui suicidio, aborto, eutánasia...) Se é certo ou errado, é discutível, mas para mim o que é indiscutível é que, se o cara chegou ao ponto de dizer que não está mais a fim de viver, ele tem o direito de se suicidar. Portanto encaro isso de uma forma natural. Talvez a sua resposta seja: Não há um motivo. O motivo para um suicidio na verdade foi apenas a gota dágua. O que há, é um ser humano que não está mais disposto a enfrentar nada e se dá o direito de apertar o foda-se.
 
Quando eu tinha uns nove anos, tomei um vidro de comprimidos pois estava triste/decepcionada/amargurada/frustrada, com alguma bobagem qualquer. Minha mãe me levou para o hospital e quando fiquei boa, me encheu de porrada. Agradeço a ela. Me fez entender que foi apenas A PRIMEIRA das inúmeras frustações que teria na vida.
Bjos...
 
bem vc sabe dessa parte da minha vida, inclusive me perguntou sobre os motivos, então já conversamos, e sabes o quão banal éra...

mas eu realmente entendo o que passa na cabeça dessas pessoas, ou não, talvez seja totalmente diferente do que passou na minha...

Fiquei interessada, vou procurar

beijos
 
Eu não assisti ao filme, mas já tentei o suicídio uma vez. Não tinha mais esperanças, e achava que a morte era o fim de tudo, e com ela eu me livraria do sofrimento. Hoje já tenho uma outra opinião, e com certeza se passasse por momentos em que isso passasse pela minha cabeça, teria motivos para pensar de outra forma.
Bjs
 
Conheço um menino qe sofria de depressao.. e ele se jogou da cobertura de onde morava com os pais. ERa um rapaz jovem,da minha idade, e que sequer tinha amigos. Tanto que, no enterro ele nao tinha ninguem da idade dele.

O pior é ver o estado em que ficoua familia dele, morando e convivendo com o fantasma q ele deixou. O irmao, apesar de rico e bem sucedido, nao vive mais.. e ja engordou mais de 40 kilos.. e mto triste...

Bjs,
Carol
www.dataespecial.com.br
 
O suicídio sempre foi um assunto distante de mim até que aos quatorze anos recebi uma ligação do meu pai dizendo que meu avô tinha se suicidado na sala de casa. Depois disso o suicídio ficou ainda mais distante de mim.

Ps: Gostei daqui, te achei na Jana. Volto mais!!!
 
Haha... ok, Tuka.. prometo não dizer que é o destino... AHAHAH..

Puxa, me interessei. Vou ver se acho. Na verdade nunca pensei tão a fundo a respeito de suicídio, mas acho que é mais uma questão de egoísmo, sabe? A maioria das pessoas possui família, amigos, conhecidos, cachorro. Daí você vai lá e se suicida? Como é que fica quem gosta de você depois? Como ficou a menininha de 3 anos depois da mãe se jogar pela janela? E quem achou a pessoa pendurada no banheiro?

Mas eu também entendo. A vida não é fácil, e às vezes dá mesmo vontade de jogar tudo pro alto. E daí já entramos naquele assunto: "você é um homem, pra enfrentar seus problemas, ou é um saco de batatas, pra fugir deles e se suicidar?"

Parabéns pelo tema, Tuka. Gostei.
Beijos.
 
É realmente incrível, incomoda, machuca, assunta... mas não vejo nada de anormal. Partindo do princípio que as pessoas escolhem o que bem entendem da sua própria vida, essa seria só mais uma escolha. Vejo como uma forma de lidar com ela (a vida). Uns enfrentam, outros não... acho que é assim que é.
Quanto aos motivos, aprendi que não podemos tentar mensurar ou comparar os problemas. Nada tem o mesmo peso pra pessoas diferentes. Explicar então, pior ainda.
Já passei com situações dessas com pessoas a minha volta, e confesso que até hoje não sei direito como agir. E também não condeno os "confortos" religiosos e até mesmo os psicológicos. Afinal de contas, ninguém quer ver gente se matando por aí.

Me interessei muito, vou procurar !
 
Sou solteiro,não tenho filhos,dependentes ,nada.. a partir do momento que meus órgãos pararem de funcionar direito,que começar a ficar dependente de alguém para me locomover,fazer o básico ...não quero ficar sendo um estorvo para outros..
 
Eu também queria entender ou tentar imaginar o que leva uma pessoa a acabar com sua própria vida. Como se nada fizesse mais sentido... Embora eu tenho todo um conceito sobre isso, incluindo religião (e que não se preocupe, não falarei aqui), não consigo imaginar um motivo realmente bom para deixar de viver... Sendo que para mim, tudo nessa vida é curável, aceitável, uma hora ou outra...
Bjitos!
 
Fiquei interessada... vou procurar ver.
Também nunca entendi pq alguém tenta se matar. Eu nunca tive uma tendência destruidora apesar de ser bem a minha cara uma auto sabotagem...
Já estive em depressão braba mesmo, cruel. tomei remédios, procurei ajuda. Superei.Em nenhum momento da crise eu quis morrer.
Meu instinto é assassino mesmo. Eu queria matar.


Aproveito pra divulgar CONCURSO CULTURAL UM ANO INSONE!!!
PARTICIPE!
 
Bom, assunto polêmico, mas eu acho o contrário, acho que quem comete o suicídio na verdade não tem nada de covarde, pelo contrário, precisa ter muita coragem para cometer o ato, pois considero um tanto quanto brutal.

Não julgo quem faça e não acredito que seja errado, é questão de escolha, valores e etc. O que parece simples para uns, parece realmente sem solução para outros.
 
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