Casa da Tuka
 

27 de nov. de 2007

A atônita anônima

Dirigiu-se ao guichê da recepção:

- Pois não, dona, em que posso ajudar?

Muito decidida, disse ao homem:

- Vim fazer uma denúncia anônima.

Os policiais se entreolharam com cara de riso. Para eles aquela tarde quente e interminável, começara a ficar divertida no instante em que aquela mulher espalhafatosa entrara na delegacia, mas essa de denúncia anônima de corpo presente ia além das expectativas.

- Denúncia anônima, dona? Ô Borbola, essa dona quer fazer uma denúncia anônima!

O tal Borbola veio lá detrás e assumiu a conversa com a mulher:

- Denúncia anônima, é?

- Isso mesmo.

- A senhora sabe que denúncia anônima não se faz pessoalmente, dona?

- Por que não?

- Pelo óbvio ué. Se a senhora está aqui não é mais denúncia anônima já que todo mundo está vendo a senhora.

Ela reagiu como se uma grande novidade lhe tivesse sido revelada naquele instante.

- Hum... Faz sentido, moço...

- Faz, né?

- E o que eu faço agora que já vim até aqui?

- Sei lá, dona. Preste aí um depoimento e faça a tal denúncia de uma vez contando qual é o grilo. Se estiver ao nosso alcance a gente resolve.

- Mas moço, um depoimento eu vou ter que assinar, eu só quero fazer uma denúncia anônima!

- Assim complica, dona.

- Eu posso te contar o que aconteceu e o senhor faz de conta que foi uma denúncia anônima, que nunca me viu. Que tal?

- Não tem jeito, dona. É contra as regras.

- O que é contra as regras? Denúncia anônima? Mas todo dia tem gente fazendo por aí.

- Denúncia anônima não é contras as regras. Mas nunca vi um fulano que quer fazer uma e vem na delegacia, a senhora é a primeira.

- O senhor está me achando burra, é?

- Não dona, eu não estou aqui para avaliar o nível de inteligência de ninguém. Só estou dizendo que não existe denúncia anônima pessoalmente.

- Sei, sei. Entendi, moço. O senhor acha preferível descartar uma denúncia importante só por esse detalhezinho de que a anônima veio pessoalmente, certo. Isso é tudo muito burocrático, moço!

- Mas, dona...

Ela não o deixou continuar a falar.

- Olha, moço eu estava aqui na frente, tá? Só resolvi entrar porque o orelhão da esquina está quebrado e meu celular deu tílti e não quer fazer ligação. Poxa, o senhor poderia ser mais compreensivo né? Sabe quantas vezes eu pensei em deixar pra lá justamente por medo de fazer um papel ridículo?

- Mas...

- Não, moço... Não tente se justificar. O fato é que neste país a gente não pode sequer fazer uma denúncia... ... anônima... ... pessoalmente. É muita burocracia!

- Moça! A senhora se acalme! Óbvio que a senhora pode fazer uma denúncia anônima! Só quero que entenda que é impossível ser anônima quando a senhora está aqui diante de mim!

- Olha aqui, moço. É Borbola o seu nome né? Aliás que nome feio, hein seu Borbola? Olha só, seu Borbola, não é porque o senhor está me vendo agora que eu deixo de ser uma desconhecida pro senhor. O senhor por acaso sabe meu nome? Sabe onde moro? Sabe o que eu faço da vida? Hein, seu Borbola?

- Não, dona. Não sei não.

- Então, seu Borbola, eu sou uma pessoa completamente anônima e assim sendo, posso fazer uma denúncia anônima pessoalmente! Pensa, pensa... Faz sentido né?

- É, dona... Se for pensar deste jeito, faz. Mas não é assim que as coisas funcionam, sabe? A gente segue normas e se a senhora está aqui na delegacia tem que prestar depoimento com todos os seus dados e não vir com essa de denúncia anônima, dona!

- Olha, moço, fique sabendo que irei aos jornais! Vou procurar os repórteres para denunciar esse absurdo, tá? Onde já se viu ser impedida de fazer uma denúncia anônima pessoalmente!

- Pode ir, aproveite e já faça a tal denúncia anônima na televisão!

E som das gargalhadas dos policiais que assistiam a cena de camarote, ela saiu da delegacia pisando duro e fazendo o maior reboliço com o salto de madeira de seus sapatos. Absurdamente indignada com o que acabara de lhe acontecer, andou algumas quadras e encontrou um orelhão que funcionava:

- Alô? É da polícia? Eu me chamo Angelita Quintino, moro na Rua Zuanir Paes, 31. Gostaria de fazer uma denúncia anônima, por favor.

Postado por Tuka *
Comments:
Muito boa.
Pra variar, adorei seu texto. :-)
Beijo.
 
Qual a cor dos cabelos dela ? rsrsrs
 
Tukaaaa, não sei se você já ganhou esse selo, mas gosto tanto do que vc escreve que quis te dar esse presentinho!
Dá um pulo lá no meu!
Bjo
Lili
 
E era loira? kkkkkkkkkk


Bincadeira inevitável!

Beijos
 
Hahaha mt bom!
 
Bah, e por curiosidade, qual foi a denúncia?
Está parecendo essa caixa de oomentário, não consigo fazer um comentário de um não blogger, sem ser anônimo!

Abraços Tuka!
Marcos Mathias
http://www.fotolog.com/seventh_hell
http://www.memathias.com
 
Tsc tsc tsc...
 
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Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

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