Dirigiu-se ao guichê da recepção:
- Pois não, dona, em que posso ajudar?
Muito decidida, disse ao homem:
- Vim fazer uma denúncia anônima.
Os policiais se entreolharam com cara de riso. Para eles aquela tarde quente e interminável, começara a ficar divertida no instante em que aquela mulher espalhafatosa entrara na delegacia, mas essa de denúncia anônima de corpo presente ia além das expectativas.
- Denúncia anônima, dona? Ô Borbola, essa dona quer fazer uma denúncia anônima!
O tal Borbola veio lá detrás e assumiu a conversa com a mulher:
- Denúncia anônima, é?
- Isso mesmo.
- A senhora sabe que denúncia anônima não se faz pessoalmente, dona?
- Por que não?
- Pelo óbvio ué. Se a senhora está aqui não é mais denúncia anônima já que todo mundo está vendo a senhora.

Ela reagiu como se uma grande novidade lhe tivesse sido revelada naquele instante.
- Hum... Faz sentido, moço...
- Faz, né?
- E o que eu faço agora que já vim até aqui?
- Sei lá, dona. Preste aí um depoimento e faça a tal denúncia de uma vez contando qual é o grilo. Se estiver ao nosso alcance a gente resolve.
- Mas moço, um depoimento eu vou ter que assinar, eu só quero fazer uma denúncia anônima!
- Assim complica, dona.
- Eu posso te contar o que aconteceu e o senhor faz de conta que foi uma denúncia anônima, que nunca me viu. Que tal?
- Não tem jeito, dona. É contra as regras.
- O que é contra as regras? Denúncia anônima? Mas todo dia tem gente fazendo por aí.
- Denúncia anônima não é contras as regras. Mas nunca vi um fulano que quer fazer uma e vem na delegacia, a senhora é a primeira.
- O senhor está me achando burra, é?
- Não dona, eu não estou aqui para avaliar o nível de inteligência de ninguém. Só estou dizendo que não existe denúncia anônima pessoalmente.
- Sei, sei. Entendi, moço. O senhor acha preferível descartar uma denúncia importante só por esse detalhezinho de que a anônima veio pessoalmente, certo. Isso é tudo muito burocrático, moço!
- Mas, dona...
Ela não o deixou continuar a falar.
- Olha, moço eu estava aqui na frente, tá? Só resolvi entrar porque o orelhão da esquina está quebrado e meu celular deu tílti e não quer fazer ligação. Poxa, o senhor poderia ser mais compreensivo né? Sabe quantas vezes eu pensei em deixar pra lá justamente por medo de fazer um papel ridículo?
- Mas...
- Não, moço... Não tente se justificar. O fato é que neste país a gente não pode sequer fazer uma denúncia... ... anônima... ... pessoalmente. É muita burocracia!
- Moça! A senhora se acalme! Óbvio que a senhora pode fazer uma denúncia anônima! Só quero que entenda que é impossível ser anônima quando a senhora está aqui diante de mim!
- Olha aqui, moço. É Borbola o seu nome né? Aliás que nome feio, hein seu Borbola? Olha só, seu Borbola, não é porque o senhor está me vendo agora que eu deixo de ser uma desconhecida pro senhor. O senhor por acaso sabe meu nome? Sabe onde moro? Sabe o que eu faço da vida? Hein, seu Borbola?
- Não, dona. Não sei não.
- Então, seu Borbola, eu sou uma pessoa completamente anônima e assim sendo, posso fazer uma denúncia anônima pessoalmente! Pensa, pensa... Faz sentido né?
- É, dona... Se for pensar deste jeito, faz. Mas não é assim que as coisas funcionam, sabe? A gente segue normas e se a senhora está aqui na delegacia tem que prestar depoimento com todos os seus dados e não vir com essa de denúncia anônima, dona!
- Olha, moço, fique sabendo que irei aos jornais! Vou procurar os repórteres para denunciar esse absurdo, tá? Onde já se viu ser impedida de fazer uma denúncia anônima pessoalmente!
- Pode ir, aproveite e já faça a tal denúncia anônima na televisão!
E som das gargalhadas dos policiais que assistiam a cena de camarote, ela saiu da delegacia pisando duro e fazendo o maior reboliço com o salto de madeira de seus sapatos. Absurdamente indignada com o que acabara de lhe acontecer, andou algumas quadras e encontrou um orelhão que funcionava:
- Alô? É da polícia? Eu me chamo Angelita Quintino, moro na Rua Zuanir Paes, 31. Gostaria de fazer uma denúncia anônima, por favor.