Ou: como é simples ser homem

Quando crianças, ganhamos fogõezinhos e panelinhas e brincamos de fazer comida. Numa ingenuidade linda, fizemos bolinhos de areia, pudins de espuma de sabão, saladas de mato e sucos de água com tinta guache. Enquanto isso observávamos nossas mães preparando a comida congelada rapidamente antes de voltar ao trabalho.
Ganhamos vassouras e rodos em miniatura e alegremente brincamos de limpar a casa. Enquanto isso, nossas mães não tinham tempo sequer de lavar a louça do café da manhã.
Também ganhamos bonecas imitando bebês e então brincamos de embalar, trocar e alimentar nossos filhos de mentirinha. Enquanto isso nossas mães diziam que quando adultas pensássemos mil vezes antes de termos filhos.
Crescemos um pouco e a Barbie com suas roupas e sapatos modernos, assumiu o lugar do resto dos brinquedos. Com essa evolução passamos a sonhar em sermos tão lindas quanto a boneca. Com ela veio o Ken e então também fantasiamos o dia de encontrarmos um namorado tão
gatchinhomm e bem sucedido quanto ele. Ao mesmo tempo, nossas mães falavam que casamento era algo secundário, que jamais deveríamos depender de homem nenhum e em primeiro sempre deveriam estar os estudos e a carreira profissional.
Quando se nasce mulher o mundo pode ser bem contraditório. Se casamos, trabalhamos e não queremos filhos, somos julgadas. Se optamos em trabalhar e jamais casar, somos julgadas. Se casamos e queremos apenas cuidar da casa, somos julgadas. Se temos filhos, mas trabalhamos demais, somos julgadas. Não, não é simples ser mulher.
Facilmente os homens abrem a boca e dizem sem o menor constrangimento: "Tanto queriam igualdade de direitos que conseguiram, agora vão à luta". Eu sempre considero burros os que têm coragem de dizer isso, pois se existe algo que jamais conseguimos é a igualdade de direitos, apenas a de deveres, e óbvio, aqueles que originalmente eram somente dos homens. As obrigações ditas femininas continuaram sendo apenas nossas. Temos o dever de trabalhar fora, temos o dever de prover uma família e temos o dever de nos sentirmos gratas pelo fato de que todo direito conquistado tenha acarretado em um dever pelo menos dez vezes mais pesado do que para um homem.
Sim, podemos votar, nos formar em faculdades, trabalhar fora, tomar pílula anticoncepcional. Mas creio que isso tudo, pelo menos para os que possuem um mínimo de neurônios pensantes, não foi nenhuma reivindicação absurda. Afinal, temos capacidade para tanto. Acontece que junto a tudo o que nos foi “concedido” vieram as cobranças do que passamos a ter obrigação. Trabalhamos, ganhamos nosso dinheiro, somos, pelo menos a maioria das vezes, mais inteligentes e capacitadas do que os homens e sempre seremos colocadas à prova. Uma cagada é feita no trânsito e logo se ouve: vai lavar louça, dona Maria! E não é raro quando o autor da frase descobre que no volante fazendo as barbeiragens está um homem. Caros, não é a toa que o seguro é mais barato para as mulheres, é porque de fato sabemos dirigir melhor do que vocês.
Ser mulher significa ter que ser pelo menos duas vezes melhor do que um homem, e digo isso com certeza absoluta de que não estou falando nenhuma asneira. É só observarmos tudo pelo ângulo mais simplista possível. Se é difícil acordar todas as manhãs, trabalhar como um burro de carga, fazer malabarismos para pagar as contas todo mês, some isso tudo a cobrança eterna de cuidar da casa, dos filhos e do marido. E caso a mulher em questão, por algum motivo circunstancial, não trabalhe fora, adicione as cobranças mesmo que silenciosas do companheiro e de todo o resto do mundo a apontando e concluindo que tudo o que faça para facilitar a vida de todos a sua volta não é o bastante, você sempre precisa ser mais, precisa ser tudo. Definitivamente o feminismo pode sim ser considerado o ato mais machista de toda história.