22 de abr. de 2008
Por uma vida menos ordinária
Não interessa onde quer que estejamos, tudo o que ouvimos desde 29 de março é sobre a menina Isabella. A imprensa enlouquecida faz plantão em frente às residências dos pais do casal e do distrito policial onde o caso está sendo conduzido – muitos já nem fazem mais questão do tal compromisso com a imparcialidade. Ambulantes aproveitam o movimento para descolar uma graninha extra: “olha a água! Justiçaa! Olha o salgadinho! Assassiiiinos! Coca-cola!”. A população enfurecida grita frases clamando justiça e se confunde entoando cantigas mórbidas: “pega lá, pega lá, o casal pra nós linchá”. A famosa justiça com as próprias mãos sempre entra em voga quando se trata de um crime desta categoria: "olho por olho", dizem.
A polícia concluiu que o casal é culpado. O casal nega veementemente e chora em entrevista na televisão. O Promotor estranha a atitude dos dois, bem diferente de quando estiveram 12 horas em depoimento na delegacia. A defesa insiste em afirmar que uma terceira pessoa esteve no apartamento com tempo suficiente para asfixiar a menina, feri-la na testa, cortar a tela do quarto, atirá-la pela janela e ainda limpar as manchas de sangue espalhadas no local.
A mídia se alimenta da curiosidade do povo e o povo se alimenta dos fatos incessantemente noticiados pela mídia. Um círculo vicioso macabro ao qual acabamos todos envolvidos, muitas vezes sem sequer nos darmos conta. Mas Isabella continuará morta. Faixas e cartazes indignados ainda estão sendo colados nos muros das casas que hospedam os supostos assassinos. Mas Isabella continuará morta. Jornalistas continuam se acotovelando na tentativa de noticiar em primeira mão cada novo fato – relevante ou não. Mas Isabella continuará morta. Os pais, amigos e pessoas que amavam a garotinha continuam sofrendo. Mas Isabella continuará morta...
A pequena Isabella, desde a triste noite de 29 de março transformou-se em “caso Isabella” e a culpa é toda nossa. Não a matamos, mas a assistimos cair daquela janela do sexto andar inúmeras vezes. Vezes suficientes para que tenhamos esquecido que antes de virar um terrível caso policial, ela era apenas uma menininha de cinco anos que era a razão de viver de pessoas que realmente estão sentido sua partida prematura. A culpa é toda nossa sim, pois todos os dias em nosso país, crianças são cruelmente assassinadas e não ficamos nem sabendo, pois não receberam destaque algum na mídia. Deixemos que a polícia faça seu trabalho, deixemos a justiça ser feita de maneira correta, e, principalmente, respeitemos a pequena e a deixemos em paz.
Marcadores: Mídia, Notícias, Tevê, Verdades incômodas
Postado por Tuka
*