
Em abril eu estava ansiosa para assistir a versão cinematográfica do livro O Ensaio Sobre a Cegueira, mas quando vi o trailer cogitei a possibilidade de que talvez Fernando Meirelles pudesse feito uma grande besteira com Saramago. Como eu disse
aqui, as cenas me deram a impressão de que a história fora transformada em uma ficção científica barata.
Na estréia fiz questão de pegar aquela terrível fila de sexta-feira achando que não seria tão terrível assim, afinal Saramago não é nenhum Batman. Para minha surpresa a fila para ver a obra do português através dos olhos do brasileiro era bem maior do que eu esperava. Maior surpresa ainda foi ver a faixa etária de muitos ali presentes – será que pensavam que aquela era a fila do Batman? Ledo engano. Que Batman que nada, eles queriam mesmo era ver José Saramago.
O filme é muito bom e definitivamente não tem nada a ver com a impressão que tive ao assistir ao trailer. Talvez existissem outras maneiras de retratar os acontecimentos, mas Fernando Meirelles escolheu bem. Não mascarou, não amenizou e personificou todos aqueles personagens sem rosto. Retratou a maldade, a sujeira e a podridão humana sem nenhum pudor. Fernandão foi audacioso como poucos diretores o são.

Quanto ao elenco, de todos os atores ali presentes, foi Julianne Moore quem melhor entendeu a densa literatura do autor. Definitivamente ela merece um Oscar pela sublime interpretação da corajosa esposa do médico.
As locações do filme foram outro atrativo. Alice Braga fez compras na mesma drogaria que eu faço e o grupo caminhou por ruas e viadutos pelos quais passo costumeiramente. Foi divertido ver São Paulo desconstruída daquela forma. Foi impressionante ver a cidade que jamais pára ou se cala, obedecer ao comando de “silêncio, luz, câmera e ação” do diretor e se transformar no palco perfeito para as filmagens de um dos melhores livros que já li em minha vida.
E que venha o Oscar 2009.