Casa da Tuka
 

29 de ago de 2005

O ir eterno

Ela iria, queria ir, mas tinha medo. Ninguém disse que seria tão difícil ir embora. Ninguém a tinha avisado que doeria tanto deixar parte de sua existência ali atrás. Porque será que é tão difícil virar as páginas de nossas vidas? Ir é sempre tão cheio de medos, de dúvidas... Porque será que vivemos constantemente atrelados ao que conhecemos?

Parecia que junto com suas coisas tivesse que colocar muito mais naquelas caixas: todos os sentimentos acumulados em anos ali naquela casa, ao lado das pessoas que mais amava na vida.

Seus pais, seus irmãos, os cachorros, aquele quintal, a bagunça de sempre, o barulho familiar, a vizinhança, até o carteiro que era o mesmo há anos - com algum esforço lembra-se do tempo em que ainda não tinha cabelos brancos.

Era tanta coisa que sequer imaginava do que podia sentir mais falta. Como de seu quarto, o mesmo em que passou anos e anos. Ali de noite e com as luzes apagadas, era possível enxergar uma sombra esquisita que fica perto do guarda-roupa. Teve medo dessa sombra por muito tempo, agora a amava e sabia que ela fazia parte de sua história.

A gritaria que achava ser insuportável. O cheiro de café que nem gostava muito. A voz melodiosa de sua mãe que sempre a chamava gritando para tomar café da manhã. O cuidado excessivo do pai ciumento. O grude da irmã quando ela queria estar sozinha. O latido estridente do cachorro mimado. O barulho da chuva batendo naquele quintal. A briga pela televisão da sala. Um universo inteiro de coisas que só existiam ali e apenas pra ela. Uma imensidão de tudo que jamais existiria em outro lugar do mundo.

Mesmo assim ela iria. Sabia que estava na hora de ir e iria. Deixaria o quarto, a casa, o bairro, a cidade. A cidade! Estava assim também pela cidade. Um aperto no peito se instalara e não dava sinais de que partiria tão cedo.

Começou a olhar aquelas ruas de modo diferente, e se odiava por isso. Quantas vezes se viu perdida em meio à mesmice de seus dias por aqueles caminhos? Quantas vezes quis estar longe e conhecer outros lugares? Milhares. Mas não agora.

Agora queria decorar o número de árvores na rua em que passava e desejava que tudo permanecesse exatamente do modo em que enxerga nesse momento. Até mesmo aquele tom de cinza no céu, do qual reclamara tantas vezes, pensando bem até que era bonito. Um dia, quando voltasse queria tudo igual.

Seus amigos? Não existirão outros melhores em outro lugar. A saudade, a falta, o vazio - isso duraria pra sempre? Ela não sabia. Sentiriam sua falta? Se esqueceriam dela? Ela não sabia. Conheceria novas pessoas, outras preencheriam o espaço dos que ficariam longe? Ela não sabia...

Apenas o que sabia é que iria. Queria ir, então iria. Em busca de seus sonhos, planos, perspectivas - em busca de sua vida. O que ficaria ali de certa forma também seguiria com ela, pois a pertenciam.

O que estará para acontecer, o que ela ainda nem sabe, o novo que a aguarda, aquilo que não poderá mais viver sem, tudo o que não faz nem idéia, o fundamental para seus dias que ainda não chegaram, o insubstituível para o que nunca sentiu antes. Tudo o que vai querer mais do que qualquer outra coisa - e que ainda não sabe o que é...

Porque a vida é assim mesmo: ir, vir e recomeçar é só parte do caminho...

***

Este post é pra você Gi, que está indo querendo ficar, mas indo assim mesmo. Pra você que fez a escolha que considera a melhor, portanto a melhor. Pra você que não nega o medo, mas o enfrenta de peito aberto. Pra você que se entristece pelo o que fica, mas que sabe que ainda tem muito a conquistar.

Pra você amiga querida que vai deixar saudade em cada um que teve o privilégio de fazer parte de sua vida. Pra você que é inesquecível em cada um que te ama e que por mais longe que vá não se distanciará jamais em alma nem em coração.

Postado por Tuka *

Leia antes de usar
Desde 15 de janeiro de 2002 uma jornalista nonsense escreve desembestada no blog que chama carinhosamente de sua Casa.

Aqui têm besteiras demais, coisas inúteis demais, enfim, tudo o que nem precisava ser dito, muito menos escrito.

Obviamente, qualquer semelhança com a realidade é única e exclusivamente uma opção da autora.

Assim como o direito de escrever
o que bem entender, claro!


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