Ainda sobre o assunto
plágio, coincidentemente uma das minhas
blogueiras preferidas, também sofreu este revés e também comentou a respeito em seu blog exatamente no dia 31 de agosto. E como ela não é qualquer uma e sim Rosana Hermann, foi capaz de elaborar a melhor tradução da sensação de ver seu trabalho surrupiado – isso ela postou no
Blônicas em 24 de julho (que catzo nenhum dos blogs possuírem permalink). Me dei a liberdade de postar aqui pra vocês COM O DEVIDO CRÉDITO.
Plágio: o que será que será?
De Rosana HermannHá dois dias o circo da minha vida foi coberto pela lona furada do plágio. Recebi um email de um leitor do blog que escrevo há seis anos, o Querido Leitor, surpreso com o fato de ter encontrado dois recentes posts meus numa coluna do jornal impresso que ele assina em Florianópolis. Fui verificar e, bingo! Lá estavam meus dois filhotinhos seqüestrados de nossa casa limpinha, presos num quartinho sujo de um cativeiro escuso. Foi só puxar o fiozinho e detonar a descoberta de uma sistemática de mais de um ano e meio, uma centena de posts que criei, escrevi e publiquei, copiados, colados e assinados como se fossem de autoria de uma figura folclórica de Floripa, segundo relatos de moradores locais.
Depois de surtar em todas as direções e sentidos, entrar e sair da depressão, sobrevivi aos ataques de dor e ira e mergulhei no mundo da reflexão e discussão com os amigos. O plágio é repugnante, desprezível e inaceitável, mas há incontáveis nuances que envolvem o sempre complexo comportamento humano. Meu interesse era o de entender não apenas 'como' ou 'por quê' uma pessoa plagia a outra, mas principalmente o quê a pessoa sente antes, durante e depois de plagiar. E, mais além, qual o processo que faz com que ela repita o ato durante tanto tempo.
O ponto em que todos concordamos é que o plagiador só copia aquilo que ele admira, que gosta, que quer para si. Algo que lhe beneficia de alguma forma, que lhe renderá algum proveito. Plagiar é roubar e ninguém rouba coisas sem valor, a não ser que seja por cleptomania. E mesmo no caso da cleptomania, aquele objeto tem algum valor para ela, ainda que muito subjetivo e inconsciente. O plagiador, antes de mais nada, é um admirador. O que não diminuiu seu grau de periculosidade considerando-se que assim como Chapman, muitos assassinos de celebridades eram fãs desses mesmos ídolos. O problema portanto é de caráter.
A ocasião também faz o ladrão no caso do plagiador. O texto disponível e aberto, a facilidade de sombrear e copiar, são agentes facilitadores da realização do ato em si, o de roubar. A pessoa lê, gosta, deseja e apropria-se do post. Esta é a parte do Ctrl+C. Vamos agora ao outro passo, a hora de colar o texto em outro lugar, o Ctrl+V.
O plagiador cola o texto em algum lugar que é seu para obter alguma vantagem. No caso de um trabalho pago, como do colunista, as primeiras vantagens são óbvias, como a economia de tempo e esforço. Muitas vezes escrevo posts por impulso, como quem senta ao piano e toca o 'bife'. Em outras ocasiões passo horas pesquisando até elaborar um post completo, com informações precisas, links ativos e figuras que ilustrem o texto. Todo este tempo, esforço e trabalho são poupados ao plagiador que já leva tudo pronto. Uma segunda intenção mais sutil é a de conseguir prestígio. Posts com conteúdos mais profundos, observações intelectuais, criações humorísticas inéditas, informações de bastidores, sejam elas de gosto duvidoso ou não, sempre agregam um toque de originalidade e sortimento à coluna do plagiador. O resultado, no meu caso, era evidente. O próprio colunista publicava elogios a si mesmo. Mas tudo isso é uma questão racional.
A questão mais profunda é...o que o plagiador sente, antes, durante e depois do plágio? O que acontece no plano emocional? Como se sente o plagiador ao receber um elogio por um texto que não é seu? Como ele lida com o medo de ser descoberto e desmascarado? Como ele age depois que isso acontece? Qual a relação de prazer e pavor que ele sente com a pessoa que ele copia?
Não posso responder por ele, mas recebi um email de uma pessoa que plagiou outro post, que passou por dois estágios que todos os culpados passam: a alegação de que fez mas não o fez por mal (o que é verdade neste caso, o plagiador não quis me prejudicar, quis apenas beneficiar-se) e a afirmação de que não é o único a fazê-lo, o famoso 'todo mundo faz'. A primeira alegação, a de não fazer por mal, é básica. Juridicamente é a alegação de que não houve o 'dolo'. A segunda, de caráter mais psíquico, é a de que não está sozinho, não é o único, ou seja, é uma tentativa de dizer que sendo algo 'comum', é também algo 'normal'. Compreendo mas não concordo. Normal não é.
Encerrando este longo texto, acredito que o plágio seja uma espécie de transformismo intelectual patológico. Um desejo de ser o outro, de estar dentro da pele do outro, um jeito Norman Bates de ser. Uma mistura de preguiça com admiração, atestado de incompetência do plagiador misturado com uma punição ao plagiado. Em última instância, o plágio é a vingança do incapaz, um tiro que, mais dia menos dia, acaba saindo pela culatra.
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