Quando eu comecei este blog há quase cinco anos, definitivamente eu não era a mesma pessoa que sou hoje. Eu era recém formada e achava que o diploma bastava para que eu pudesse escrever de forma decente, da maneira que supostamente espera-se que um jornalista tenha que escrever. Achava que era capaz de coisas que só a ingenuidade nos faz pensar que somos capazes, como, por exemplo, tocar um jornal sozinha e de ser impassível aos olhos de pessoas que torciam todos os dias por um erro, qualquer que fosse.
E eu errei, errei bastante. Mas humildemente ouvi tudo o que de válido me disseram para que eu aprendesse e desaforadamente ignorei e dei de ombros a todos os que simplesmente me apontaram como uma menina tola, aquela que não sabia nada do mundo que queria mudar. Acontece que eu era mesmo uma menina tola, mas não era apenas isso.

Eu não sabia escrever tão bem como achava que escrevia e nem tão bem como deveria – meus textos jornalísticos eram apenas meia-boca e os desta Casa eram verdadeiramente medíocres. Eu não tinha idéia que o ato de escrever era muito além do que fazê-lo com frases livres de erros de português. Eu era uma sonhadora tentando encontrar respostas impossíveis. Eu ainda não sabia o quanto as pessoas podiam ser cruéis. Eu venerava coisas que hoje sequer lembro que gostava. Eu facilmente trocava os pés pelas mãos e bagunçava minha vida. Eu tinha o amor próprio de um homem bomba. Eu era imatura e inocente em quase tudo. Eu não sabia bem o que queria da vida.
As coisas que escrevi naquele início variaram de matérias sobre traficantes de drogas (recebendo ameaças depois), politicagem (me tornando persona non grata do prefeito medíocre de uma cidade pequena e também a queridinha do então governador Geraldão), socialites (respirando fundo para não ter ânsia de vômito com tanta futilidade), cinema (me entregando com alma a arte que tanto amo), entrevistas com músicos (inocentemente permitindo que um deles se apaixonasse), ideologistas (me deixando encantar um pouco por causas inalcançáveis), médicos (admirando loucamente uma grande profissional), bandidos (me controlando para não socar as pessoas que seqüestraram uma grande amiga), pedófilos (incrédula diante da maldade alheia), policiais (me divertindo com a seriedade forçada daqueles que tremiam diante do meu gravador ligado)...
Foram muitas coisas, muitos momentos, muitas caras feias para a menina que não tinha receio de perguntar qualquer coisa que fosse, muitos olhares e cochichos disfarçados em vão quando eu chegava ao local de alguma matéria. Afinal quem eu pensava que era? Como era possível que eu não abaixasse a cabeça para aquelas pessoas que sempre mandaram na cidade? Como é que eu não me impressionava diante da caridade hipócrita de alguns com o real intuito de se autopromover? Como aquela menina podia ser tão petulante? Eu era sim uma menina tola. Mas tola por nunca ter tido medo de dar a cara à tapa e nem de enfrentar princípios questionáveis apenas porque estavam estabelecidos por meia dúzia de pessoas que se achavam acima de qualquer coisa.
Já no campo restrito desta Casa, eu era alguém que achava que sabia muito de muita coisa. O motivo nem sei ao certo, mas eu pensava que podia escrever e bem a respeito de qualquer coisa referente à vida. Mentira. Eu sabia pouco de pouca coisa. Não sabia sequer muito bem nem a respeito de mim mesma. Mas foi assim, pensado ser capaz de colocar qualquer coisa no papel, que aos poucos fui me dando conta de que para escrever bem é preciso amor, é preciso colocar o coração na ponta dos dedos e ter bagagem de vida. Não bastam relatos de terceiros, para escrever é necessário estar um pouco em cada uma das histórias - é preciso se identificar com as situações, é preciso saber se colocar no lugar de quem inspira seus escritos. Escrever sobre a vida, sobre coisas comuns a qualquer ser humano é realmente uma reverência aos dias que passam. É uma homenagem a tudo o que já vivemos e a tudo o que nos fez crescer, amadurecer e às coisas que nos tornaram melhores do que um dia fomos. E esta minha paixão, a de escrever sobre coisas “banais”, me permitiu saber muito mais sobre mim mesma.

Alguns anos depois eu ainda não acho que aprendi a escrever bem, mas acho que melhorei alguma coisa. Vez em quando ainda cismo em questionamentos sem sentido, mas nada fica ecoando em minha cabeça mais do que alguns minutos. Me dei conta de que nem todo mundo vale a pena, seleciono melhor meus amigos e contatos, mas sei que nem por isso estou livre de me estrepar. Meu amor próprio ainda oscila: varia de “putaqueopariu-como-sou-linda-e-inteligente” à “ô-inferno-hoje-tô-uma-merda”, mas aprendi que nem todo dia estarei me sentindo tão feliz. Amadureci em quase tudo, menos no que eu ainda não tenho idéia de que seja preciso - eis aí o tudo que ainda não sei que agora não ouso dizer que sei. Portanto espero.
Aprendi enfim que eu não preciso peitar o mundo, mas também não tenho que me submeter a nada do que acho que não está certo. E, sobretudo aprendi que nunca saberei demais a respeito de nada, apenas o suficiente – e isso me fez aceitar as coisas que não posso mudar. Escrever pra mim é algo como respirar e então escrevo, escrevo, escrevo, sem cansar. Quem sabe um dia eu possa de uma vez por todas abrir a boca e dizer com todas as sílabas: escrever é a única coisa que sei fazer e faço muitíssimo bem.